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O Oscar 2021 e o esperneio dos descontentes

A premiação teve surpresas que não agradaram muita gente, mas seriam reclamações justas?

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Silveira institucional

Há uma expressão jocosa no mundo do Direito da qual eu gosto muito: “jus esperneandi”. Como se trata de um falso latim, há variações na escrita, mas basicamente significa o direito que qualquer um tem de espernear feito uma criança contrariada por seus pais. Não se trata de uma lei, sequer uma jurisprudência. Apenas constata que mesmo sem razão alguma, você tem o direito de não gostar de um determinado resultado. Não gostar de algo, na maioria das vezes, não muda em nada o resultado daquilo que você não gostou.

Mal termina a premiação do Oscar, sempre começa o jus esperneandi. É claro que, ao longo dos 93 anos dessa premiação, houve inúmeras injustiças. Quem não se lembra de “Shakespeare Apaixonado” vencer “A Vida é Bela” e “Central do Brasil” na categoria de Melhor Filme? Muitos sequer se lembram do filme, mas da injustiça cometida poucos esquecem. Reclamar? É seu direito, mas não muda em nada o resultado. “Shakespeare Apaixonado” levou o tio Oscar dourado para casa e fim de papo (para quem não sabe, a premiação leva esse nome porque, quando a estatueta foi feita, alguém disse que lembrava muito um querido parente seu, o tio Oscar).

Tem muita gente reclamando que “Nomadland” não deveria ter levado a estatueta. Motivo: o filme é lento. Outros reclamam que Anthony Hopkins estragou a festa ao ganhar o prêmio de Melhor Ator, motivo: todo mundo estava torcendo para o saudoso Chadwick Boseman. Outros, ainda, reclamaram que o Oscar desse ano estava “lacração” demais, sabe-se lá o que significa isso. Talvez tenham razão, mas também tudo isso seja apenas exemplos de “jus esperneandi”.

O que poucas pessoas sabem, dentre as que estão reclamando, é que uma premiação no mundo artístico não é uma competição. Ser indicado, na maioria das vezes, é mais importante do que ser premiado. É claro que levar o prêmio é importante e objeto de desejo, porém é apenas a ponta do iceberg de tudo o que envolve a produção de um filme e sua consagração entre os membros da Academia. Além disso, o Oscar é um evento da indústria cinematográfica. Seu maior feito é colocar filmes artísticos no circuito das grandes bilheterias – já que os filmes de entretenimento, os chamados blockbusters, sempre dão muito mais retorno financeiro do que o filme-arte.

Apenas para trazer um pouco mais de luz ao debate, a diferença entre um filme artístico para um filme de puro entretenimento é apenas teórica. Ambos possuem seu valor artístico, bem como ambos oferecem entretenimento ao público. Não há nenhum problema em preferir um ou outro, tampouco gostar mais de um do que de outro. E, convenhamos, nem sempre estamos com ânimo para assistir um filme que busca desencadear em nós uma visão crítica ou um pensar relevante, que é o objetivo em geral de um filme-arte. E também convenhamos que nem sempre temos paciência para um filme-entretenimento, que busca apenas a diversão sem maiores compromissos. Cada um tem o seu lugar no universo cinematográfico. E é possível um filme de entretenimento ter em seu âmago o seu valor estético e artístico, bem como é possível um filme-arte ser divertido e dinâmico. Acredite, tudo isso é levado em consideração pelos membros da academia na hora de indicar os concorrentes e também na hora de votar nos vencedores.

Qualquer um que ganhasse o prêmio de Melhor Ator, dentre os indicados, mereceria o prêmio. Se olharmos somente para a performance em seus respectivos filmes, ignorando os trabalhos anteriores de Hopkins e também a trágica morte de Boseman, esses dois estavam em pé de igualdade. Provavelmente foi o que aconteceu, a maioria dos membros da Academia escolheu olhar somente para os filmes, deixando de lado qualquer outro apelo e significado senão a comparação entre as performances de cada um desses atores. Deu Anthony Hopkins, nem mesmo o próprio ator esperava por essa.

“Nomadland” é um filme contemplativo e, de fato, tem um ritmo um pouco mais lento do que o de seus concorrentes. Não possui um arco dramático tão escancarado como “Os 7 de Chicago”, não possui a verve de “Jesus e o Messias Negro”, tampouco a filosofia existencialista de “O Som do Silêncio”. Mas não era pior que nenhum deles. É muito sutil, mas o drama está presente o tempo todo nas vidas dos nômades, a verve e o discurso de indignação está nas entrecamadas de cada diálogo, e a filosofia está no contraste entre as belas paisagens e a vida insalubre. É daqueles filmes onde a experiência ao assistí-lo não termina quando sobem os letreiros, pois iremos refletir sobre o que vimos durante alguns dias.

O realismo de “Nomadland” é muito impressionante. Os diálogos são precisos. Chega a ser imperceptível a diferença entre atuações dos atores e dos não-atores. Querer um filme assim, muitos querem, mas beira o impossível conquistar um excelente resultado. Chloé Zhao conseguiu, só por isso já valeu as indicações como Melhor Diretora e Melhor Filme. O que o fez vencedor, provavelmente, foi a excelência na quebra de modelos, de paradigmas. Não adota maniqueísmos, como a cansativa batalha entre bem e mal. Não adota sequer a batida fórmula de três grandes arcos, o famoso “começo, meio e fim”. Aperfeiçoa novas linguagens e explora sentimentos complicadíssimos para interpretar como a solidão e a solidariedade. Além de todas essas qualidades, a premiação reflete o cinema do ano pandêmico. Uma produção independente, uma filme que aborda a escassez justo num período de imensa escassez, “Nomadland” foi o filme que melhor traduziu as angústias de nosso período.

Francis McDormand, em “Nomadland”, tem uma performance que é o extremo oposto ao de Viola Davis em “A Voz Suprema do Blues”. McDormand tem uma atuação de micro-movimentos, naturalista, repleta de detalhes em gestos e sentimentos. Já Davis tem atuação típica de teatro, tudo é grande, tudo é escancarado, tudo é exagerado. Ambas performances dependem de uma boa história, de uma grande preparação de atriz, de uma boa direção de fotografia e de direção de arte, mas nada disso seria grande coisa sem uma atriz se superando a cada cena. Qualquer uma dessas duas que vencesse seria justo. Deu Francis McDormand.

A 93ª edição do Oscar não foi isenta de injustiças. “Destacamento Blood”, de Spike Lee merecia concorrer em outras categorias e Druk poderia ser indicado também na categoria de Melhor Filme. Nada me convence do contrário de que “Bela Vingança” sequer deveria ter sido indicado, muito menos levar Melhor Roteiro Original – o filme tem severos problemas, sem entrar no mérito de seu tema e respectiva polêmica. “Professor Polvo”, como melhor Documentário, até mereceu o prêmio, mas deixou um gosto de certa covardia da Academia por ser o único documentário que não abordou temas sensíveis ou polêmicos. Mas, talvez até mesmo essas minhas considerações sobre tais injustiça sejam apenas meu livre exercício do direito de espernear.

Pós-créditos: sem dúvida, o final da premiação foi marcado pelo seu anticlímax. Toda a surpresa na categoria de Melhor Ator acabou sendo um banho de água fria. Não por Anthony Hopkins ter estragado o bolão de muita gente, até porque ele mereceu o prêmio. Mas não deixar um ator de quase noventa anos de idade gravar seu agradecimento. Para receber o prêmio, Hopkins seria obrigado a se expor viajando da Escócia para os Estados Unidos no meio de uma pandemia. 

Rondomed
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