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Mestres do universo: Revelação (Netflix)

O He-Man sem o He-Man. É bom, mas para quem se desapega da nostalgia

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Camargo Café

He-man é um desenho promocional, feito para vender brinquedos ao longo da década de 1980. Bastante datado, tinha uma fórmula pronta em quase todos os episódios: um príncipe subestimado que se transforma em um guerreiro muito forte sempre que o vilão, Esqueleto, ataca e ameaça a paz no reino ou ao castelo de Grayskull. No fim, ainda havia um momento “moral da história”, para contrabalancear tantos músculos e lutas, afinal, a atração era para crianças em um tempo em que o mercado publicitário enxergava nelas alguma capacidade de consumo.

Quarenta anos se passaram desde que o público brasileiro tinha como café da manhã cereais matinais acompanhados por He-Man no “Xou da Xuxa”. A nostalgia de uma infância de quem foi criança nos anos 1980 foi aguçada por um vídeo promocional que prometia a volta do heroi daqueles tempos à partir do “exato momento em que termina o último capítulo daquela saga”, segundo disse Kevin Smith (diretor de O Balconista, Barrados no Shopping, Dogma e um dos diretores mais citados sempre que o assunto é adaptar histórias em quadrinhos para o cinema). A campanha publicitária, aliás, anunciando o retorno da atração, foi de tirar o fôlego.

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Talvez o problema tenha sido justamente essa campanha publicitária, pois acabou elevando em muito as expectativas. Pior, não revelou do que realmente se tratava a atração. Ou seja, prometia a volta daquela nostalgia toda, mas se tratava de uma visão renovada, mais amadurecida do desenho original. E tudo apontava para uma atração memorável, com Mark Hamill (Star Wars) fazendo a voz de Esqueleto, Lena Headey (Game of Thrones) a voz de Maligna, Sarah Michelle Gellar (Buffy, a caça-vampiros) a voz de Teela, Chris Wood (The Vampire Diaries) a voz de He-Man/Príncipe Adam, Alicia Silverstone (As Patricinhas de Beverly Hills) a voz da rainha Marlenna, e tantos outros nomes desse elenco fantástico.

Muitas pessoas questionam se essa onda de resgatar séries e filmes do passado não seria uma crise de criatividade da indústria cultural. Não creio, pois nunca se criou tanto com o advento da internet e seus streamings. Praticamente se tem o dobro, talvez o triplo de atrações em relação aos tempos em que a TV à Cabo era sinônimo de variedade e novidade em matéria de criação. Mas não basta simplesmente trazer um produto de volta, há de ser mais ousado, mais ambicioso. E He-Man não pode ser apenas um desenho para promover a venda de brinquedos.

É necessário se desapegar da nostalgia para apreciar o novo desenho. Dessa vez há uma luta real. O mal realmente pode vencer e Eternia pode sofrer severamente as consequências dos ataques de Esqueleto. Não apenas isso, tudo é levado à sério: Teela se sente ultrajada ao saber a verdade sobre He-Man e o Príncipe Adam, Gorpo é um feiticeiro deprimido e à beira da morte, rei e rainha de Eternia sofrem com o destino de Adam. He-Man nunca foi invencível, apenas dono de uma sobre-humana força. A magia acabou, resta uma sociedade em ruínas.

Tanta destruição não poderia ter outro sentido para o nostálgico senão a destruição também de suas mais gostosas lembranças. O tom é funesto, amargo. Mas com um profundo respeito ao material de origem. Peca somente na brevidade dos episódios, tudo acontece mais rápido do que deveria. Fomos expostos, quando a atração deveria nos envolver.

A série promete uma segunda e última temporada. Precisa resolver os problemas que criou. A estrutura de He-Man agora é a partir do ponto do absurdo, da quebra absoluta de todos os paradigmas que a obra construiu ao longo dos anos 1980. Os personagens receberam também mais músculos, mais camadas emocionais. E ganhou também polêmica ao tirar os holofotes de He-Man e colocá-los sobre Teela. Ela será, talvez, a próxima heroína (eu particularmente já a achava a grande campeã da atração).

Infelizmente, a celebração em torno das referências que cultivamos em nossa infância precisa dar lugar ao novo. Novas gerações estão por vir e elas não se contentam com pouco. É necessária uma narrativa nova, mas também gloriosa. Elas, as novas gerações, não tem apreço por nenhum dos personagens e não ligam se elas morrerem em batalha. Afinal, estão mais conscientes de que a guerra mata culpados e inocentes, herois e vilões. Já os mais velhos teimam em amadurecer e, talvez por isso, irão detestar o desenho de He-Man, já que não tem o He-Man, pelo menos como protagonista.

VEREDITO: Mestres do Universo é o reinício de uma odisseia cheia de mundos mágicos que não são tão incríveis, com conflitos que não são tão emocionantes e sem lições de moral. O desenho sofre da chamada crise da meia idade, que acomete principalmente os homens de quarenta anos. Ao mesmo tempo, apresenta um desenho mais maduro, melhor formatado, com perigos reais e verdadeiras consequências. Mas sua apreciação depende de você conseguir abandonar a nostalgia. NOTA: 8,0.

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