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Os sete de Chicago: um retrato do mais vergonhoso julgamento da história dos EUA

Crítica da semana, inaugurando os filmes do Oscar

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Camargo Café

As fontes de inspiração do cinema são inúmeras e, dependendo de onde venham, deixam características marcantes. No caso de Os 7 de Chicago (Netflix, 2020) é a importância dos diálogos, característica típica de quem bebe na fonte do teatro para produzir cinema. Seu diretor, Aaron Sorkin, gosta da fala! E como esse filme tem falas! Mas elas são bem desenvolvidas, tem sua força e seu lugar. Se julgarmos como obrigatória a noção de que “no cinema, não me diga, mostre-me”, corremos o sério risco de não apreciarmos devidamente grandes obras como Os 7 de Chicago.

Caso o filme fosse mero suspense de tribunal, teríamos já um filme interessante. Mas o que o torna mais perturbador é saber que esse julgamento aconteceu de verdade. Ele durou seis meses, com ampla cobertura da imprensa e mais de uma centena de testemunhas envolvidas. Oito pessoas são acusadas de conspiração e por serem responsáveis pelos confrontos com a polícia de Chicago que culminaram em mortos e feridos. Estes oito representam algumas das lideranças envolvidas nos protestos contra a guerra do Vietnã durante a Convenção do Partido Democrata de 1968. É considerado por muitos estudiosos como o mais vergonhoso julgamento em toda história americana.

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O nome do filme é o mesmo pelo qual a imprensa da época se referia quando narrava os eventos daquele julgamento. Não seriam os 8 de Chicago, pois Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II, que segura bem o forte papel que precisou interpretar), um dos líderes e co-fundador do Partido dos Panteras Negras, estava praticamente num julgamento à parte. Uma espécie de bode expiatório do qual o racismo institucional da época escolheu para punir a fim de tentar freiar os avanços dos movimentos sociais pelo fim do segregacionismo que havia na época. É um dos episódios mais lamentáveis da história dos Estados Unidos, pois Seale sequer chegou a participar dos protestos e acabou sendo amordaçado e amarrado em pleno tribunal. A deprimente e horrorosa situação provocou o anulamento de todas as acusações, ainda que ele permaneceu preso, respondendo por uma série de desacatos arbitrariamente assim considerados pelo tendencioso juiz Julius Hoffman (Frank Langella, a melhor interpretação do filme).

Os demais réus dariam um estudo sobre como a esquerda estadunidense é heterogênea e tem dificuldades de se unir mesmo quando os objetivos são os mesmos. Dois deles foram escolhidos pela promotoria para serem inocentados, uma espécie de manobra premeditada a fim de criar argumentos de que se tratava de um julgamento justo e imparcial. Já os demais estavam lá para serem punidos exemplarmente, numa tentativa desesperada por parte do governo de reagir contra os crescentes e barulhentos protestos contra a guerra do Vietnã. Eram eles: Tom Hayden (Eddie Redmayne, com boa atuação) e Rennie Davis (Alex Sharp, que quase desaparece no filme), membros da SDS, uma espécie de braço do Partido Democrata no movimento estudantil; o ativista de meia-idade David Dellinger (John Carroll Lynch, excelente interpretação, vemos sua angústia expressa em seus olhos), representando as correntes sindicais cristãs-pacifistas muito comuns nos EUA até os dias de hoje; e os representantes da contra-cultura hippie Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, sabe-se lá por quê) e Jerry Rubin (Jeremy Strong, que está adorável).

Do lado da acusação é mais complicado de definir. São tantas as manobras e elementos nos bastidores do julgamento que nem mesmo o filme conseguiu dar conta de tantos personagens que deveriam ser interpretados. A escolha do fime começa já nos corredores do poder. Uma cena inicial mostra os promotores (interpretados por J. C. MacKenzie e Joseph Gordon-Levitt, com interpretações satisfatórias, mas que ficaram em segundo plano, quase sem brilho) no escritório do recém-empossado promotor-chefe John Mitchell (John Doman, excelente atuação, quase teatral). Ali vemos que o presidente Nixon interviu diretamente na escolha do novo promotor-chefe a fim de instalar um massacre contra os movimentos anti-guerra. Mais tarde, o filme mostrará que a manobra foi ainda mais brutal com o depoimento do ex-procurador-chefe Ramsey Clark (Michael Keaton, com interpretação precisa que valorizou bastante o filme).

De forma geral, trata-se de um julgamento completamente absurdo se não fosse baseado numa história real. Talvez os anos 1960 tenham sido daquele jeito, mas estamos diante de uma obra cinematográfica, onde as escolhas poéticas por vezes atropelam o realismo. E Aaron Sorkin não tinha nenhum compromisso com o realismo. Trata-se de uma obra retórica, teatral e argumentativa. Se você tiver problemas com as licenças poéticas, terá problemas em apreciar Os 7 de Chicago. Mas caso isso não te incomode, estará diante de um filme bem feito, com uma coleção notável de excelentes atores em grandes performances de seus papéis.

Aprofundando um pouco mais nas camadas que o filme nos oferece, a escolha de não eleger o tal do lado certo entre direita e esquerda é um grande acerto. Ainda que os absurdos dos representantes da direita e que estão no poder sejam de embrulhar o estômago, o filme não é nem um pouco condenscendente com a esquerda. Pelo contrário, faz questão de mostrar que há segmentos e correntes dentro do campo da esquerda que, mesmo sendo alguns poucos e minoria dentro de seus movimentos, de tão egoístas que são, a causa justa do fim da guerra é mero palco para suas vaidades. As rivalidades entre os representantes dos movimentos sociais é o segundo motor dramático do filme, afinal o tribunal e as barbaridades do juiz Hoffman é o principal.

É complicado analisar cada elemento do filme, pois são muitos e esta crítica não terminaria nunca. Mas os principais defeitos do filme não estão nas escolhas estéticas e nem na performance de seus atores. As maiores dificuldades do filme e talvez seus maiores problemas estão nas superficialidades de alguns elementos históricos que poderiam nos dar maior dimensão da importância daquilo tudo para a história dos Estados Unidos – talvez para a história da humanidade. Algumas licenças poéticas são acertadas, deixando a história fluída, simples e clara. Mas outras são apressadas, quase preguiçosas. Além de clichês desnecessários como a queima de sutiãs sem nenhum contexto do que significa aquele símbolo na história política feminista e a forçada catarse da cena final onde dá a entender que foram lidos mais de quatro mil nomes dos soldados mortos no Vietnã enquanto aquele julgamento acontecia.

VEREDITO: o filme peca nas licenças poéticas, por vezes colocando tudo num mesmo saco coisas que eram completamente antagônicas entre si. Por vezes é desajeitado, forçando por lado a lado elementos cômicos e momentos de brutalidade policial. Mas o conjunto da obra oferece um relato envolvente e que dialoga com nossa atualidade de maneira relevante. É um ótimo filme, forte candidato ao Oscar. NOTA: 9,0.

Cesar Tintas
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