Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
Professor no Brasil: entre a responsabilidade máxima e a exigência mínima
Por Gelsiney Schell
Existe uma contradição silenciosa no Brasil que precisa ser encarada com seriedade: exige-se da educação o papel de transformar a sociedade, mas não se exige, com o mesmo rigor, a formação e a validação de quem está no centro desse processo — o professor.
Defender o professor não é fechar os olhos para os problemas da profissão. Pelo contrário. É reconhecer que muitos desses problemas não nascem no indivíduo, mas em um sistema que, há anos, falha em estabelecer critérios sólidos de formação, seleção e acompanhamento.
Hoje, o Brasil permite que alguém se torne professor com relativa facilidade. Em muitos casos, basta concluir um curso — independentemente da profundidade real da formação —, prestar um concurso básico, apresentar documentos e assumir uma sala de aula. Não há, de forma consistente, uma avaliação qualitativa rigorosa. Não há um filtro nacional forte. Não há um padrão elevado que garanta que todos os profissionais que entram estejam, de fato, preparados.
Compare isso com outras áreas. Médicos passam por processos longos, avaliações práticas e conselhos reguladores atuantes. Engenheiros, arquitetos, psicólogos e profissionais de educação física possuem órgãos que fiscalizam, exigem, acompanham e, quando necessário, impedem o exercício da profissão. Existe um controle real.
Na educação, esse controle é frágil ou inexistente.
O resultado é um sistema desigual. Existem professores extraordinários, altamente comprometidos, que estudam, se atualizam e transformam vidas. Mas também existem profissionais que passaram por formações superficiais, sem prática adequada, sem exigência real, e que chegam à sala de aula sem o preparo necessário.
E aqui está o ponto central: isso não é apenas um problema individual. É um problema estrutural.
Quando o sistema permite que a formação seja tratada como formalidade, abre-se espaço para uma lógica de mercado de diplomas, onde o objetivo deixa de ser aprender e passa a ser apenas obter um certificado. Quando não há avaliação rigorosa, a responsabilidade recai injustamente sobre toda a categoria. Os bons pagam pelos fracos. A profissão perde prestígio. E, no fim, quem mais sofre é o aluno.
É incoerente exigir excelência educacional sem exigir excelência na formação docente.
Se o Brasil quer, de fato, melhorar sua educação, precisa começar pela base mais sensível e mais estratégica: quem ensina.
E aqui entra um ponto fundamental: já existem modelos no mundo que mostram que isso é possível. A Finlândia, por exemplo, estruturou sua educação a partir de critérios rigorosos e consistentes para a formação docente. Não se trata de copiar um país, mas de compreender princípios que funcionam.
Na Finlândia, poucos entram nos cursos de formação de professores. O processo é seletivo, exigente e valoriza não apenas conhecimento teórico, mas também habilidades práticas, emocionais e pedagógicas. A formação inclui pesquisa, prática supervisionada intensa e alto nível acadêmico. Não basta querer ser professor — é preciso demonstrar preparo real.
Além disso, há confiança no profissional, mas essa confiança nasce de um filtro rigoroso na entrada. O sistema não tenta corrigir depois; ele evita o problema antes.
Trazer esses critérios para o Brasil significaria mudar a lógica atual. Em vez de permitir entrada ampla e controle frágil, seria necessário estabelecer seleção mais exigente, formação mais profunda, avaliações qualitativas reais e acompanhamento contínuo. Isso não excluiria bons profissionais — ao contrário, protegeria e valorizaria aqueles que realmente estão preparados.
Valorizar o professor não é apenas aumentar salário ou fazer discursos. É garantir que apenas profissionais qualificados, comprometidos e bem formados tenham a responsabilidade de ensinar.
Porque educar não é uma função qualquer.
É a função que define todas as outras.




