Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
Quando Parece Que Deus Se Calou
Por Gelsiney Schell
Existe um momento na vida em que quase todos nós chegamos ao mesmo pensamento silencioso: “Será que Deus me abandonou?”
É aquele período em que tudo parece falhar ao mesmo tempo. A saúde enfraquece. As finanças apertam. Os relacionamentos se quebram. Os sonhos se distanciam. E, enquanto olhamos ao redor, temos a sensação de que Deus está abençoando todo mundo — menos nós.
Nessas horas, a história de Jó deixa de ser apenas um relato bíblico e passa a ser um espelho da condição humana.
Jó era justo. Temente a Deus. Próspero. Um homem íntegro. Mas houve um momento em que sua fé foi colocada à prova. O adversário questionou diante de Deus: Jó só é fiel porque possui tudo. Então veio a permissão divina: tiraram-se os bens, os animais, a família, a saúde — tudo, exceto a vida.
E o mais impressionante não foi o sofrimento de Jó. Foi sua postura.
Ele não blasfemou. Não abandonou a fé. Não perdeu a consciência de que Deus continuava sendo Deus mesmo quando a vida deixava de fazer sentido.
Jó compreendeu algo profundo: nem toda perda é abandono. Muitas vezes, é processo.
Nós, porém, frequentemente reagimos de outra forma. Diante das dificuldades, a pergunta surge rápida: “Por que Deus fez isso comigo?”
Mas raramente perguntamos:
Quais escolhas me trouxeram até aqui?Quais limites ignorei?
Quantas decisões tomei sem sabedoria?
Deus nos concede algo poderoso e, ao mesmo tempo, perigoso: liberdade.
Liberdade para escolher caminhos, relacionamentos, hábitos, prioridades. E muitas vezes usamos essa liberdade sem responsabilidade. Depois, quando colhemos consequências difíceis, buscamos alguém para culpar — e Deus acaba sendo o alvo mais fácil.
Existe também outra questão silenciosa: o que realmente pedimos a Deus?
Nossas palavras carregam intenção. Aquilo que repetimos, aquilo que declaramos, aquilo que alimentamos em pensamento molda nossa postura diante da vida. Alguns dizem que o universo devolve o que emitimos. Para o homem de fé, essa ideia ganha outro nome: providência divina.
Porque tudo pertence a Deus. A criação, o tempo, as oportunidades, os encontros e até os aprendizados nas perdas.
Certa vez, conversei com um homem em situação de rua no centro de Porto Alegre. Ele observava o trânsito intenso da cidade e disse algo que nunca esqueci:
— Tenho pena dessas pessoas dentro dos carros. Parecem pássaros em gaiolas. Cantam, assobiam, saem de casa às cinco da manhã, passam horas presos no trânsito e chamam isso de viver.
Aquele homem não era ignorante. Era formado em Direito. Foi advogado durante anos. Perdeu coisas importantes da vida e, em determinado momento, decidiu viver fora do que ele chamava de “bolha”.
Aquilo me fez pensar.
Quantas vezes confundimos rotina com propósito?
Quantas vezes chamamos sobrevivência de vida?
Quantas vezes pedimos a Deus mudanças, mas resistimos a mudar?
Nem toda dificuldade é castigo. Nem toda perda é derrota. Nem todo silêncio de Deus é ausência.
Às vezes, Deus permite o deserto para revelar quem somos sem as facilidades.
Jó recebeu tudo em dobro no final de sua história. Mas o verdadeiro milagre não foi a restituição material. Foi a transformação espiritual. Ele passou a conhecer Deus não apenas pelas bênçãos, mas pela experiência profunda da fé em meio à dor.
Talvez a pergunta correta não seja:
“Por que Deus permitiu isso?”
Talvez seja:
“O que Deus quer me ensinar enquanto passo por isso?”
Porque Deus não retira nossa liberdade. Ele permite escolhas — inclusive as erradas — e nos acompanha também nas consequências.
E há algo que precisamos lembrar: Deus não mede sucesso como nós medimos. Para nós, sucesso é conforto, estabilidade e conquistas visíveis. Para Deus, muitas vezes, sucesso é caráter formado, fé amadurecida e consciência despertada.
Nem sempre o caminho fácil constrói pessoas fortes.
Se hoje você atravessa um tempo difícil, talvez não seja abandono. Talvez seja lapidação.
Talvez Deus não esteja distante.
Talvez esteja trabalhando em silêncio.
E como Jó, a fé verdadeira nasce quando continuamos confiando mesmo sem entender.
Porque quem aprende a permanecer fiel na ausência das respostas descobre, no tempo certo, que Deus nunca deixou de estar presente.




