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Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell

Um Relógio… Duas Histórias

Por Gelsiney Schell.

Publicado

em

Foto: Gelsiney Schell.
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A noite em que um continente viveu a alegria e a tragédia ao mesmo tempo.

24 de junho de 2026.

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Quarta-feira.

O relógio marcava 19 horas, no horário de Brasília.

Em Miami, mais de setenta mil pessoas enchiam as arquibancadas para acompanhar um dos maiores eventos esportivos do planeta: a Copa do Mundo.

Brasil e Escócia entravam em campo.

As bandeiras tremulavam.

Os hinos haviam acabado de ser executados.

Milhões de televisores estavam ligados.

Em casas, bares, praças e restaurantes, famílias inteiras acompanhavam a partida.

Naquele instante, o futebol era o centro das atenções de um continente inteiro.

Mas, exatamente naquele mesmo momento, a poucas horas de voo dali, iniciava-se uma das maiores tragédias da história recente da Venezuela.

Às 19h04, no horário de Brasília, a terra rompeu o silêncio em La Guaira.

Primeiro veio o tremor.

Logo depois, um segundo abalo, ainda mais intenso.

Em poucos segundos, o chão deixou de ser firme.

Prédios oscilaram.

Alguns tombaram.

Outros simplesmente desabaram.

Muros vieram abaixo.

Casas desapareceram sob nuvens de poeira e toneladas de concreto.

A energia elétrica falhou.

As comunicações começaram a desaparecer.

As ruas foram tomadas pelo caos.

Gritos de medo.

Gritos de dor.

Gritos de quem chamava pelos filhos.

Pelos pais.

Pelos irmãos.

Pelos amigos.

Enquanto isso…

Em Miami…

A bola continuava rolando.

Os narradores descreviam cada jogada.

As câmeras percorriam as arquibancadas.

Os torcedores sorriam.

As bandeiras balançavam.

A esperança vestia amarelo.

Poucos minutos depois…

Veio o primeiro gol do Brasil.

O estádio explodiu.

Milhares de pessoas saltaram das cadeiras.

Abraços apertados.

Lágrimas de felicidade.

Fogos.

Cantos.

Uma celebração que parecia não ter fim.

Naquele mesmo instante, em La Guaira, outra explosão acontecia.

Não de festa.

Mas de concreto.

Enquanto um povo comemorava um gol…

Outro se ajoelhava sobre os escombros, rezando para ouvir um único pedido de socorro.

Enquanto um estádio inteiro gritava:

— Gooooool!

Mães gritavam os nomes dos filhos.

Filhos chamavam pelos pais.

Famílias inteiras cavavam pedras com as próprias mãos.

Uns celebravam uma bola na rede.

Outros imploravam para encontrar alguém ainda com vida.

Na televisão, o placar aumentava.

Na Venezuela, crescia a lista de desaparecidos.

Em Miami, os refletores iluminavam o gramado.

Em La Guaira, lanternas, celulares e pequenas luzes iluminavam montanhas de concreto na esperança de encontrar um sobrevivente.

Dois acontecimentos.

O mesmo continente.

A mesma noite.

O mesmo relógio.

Praticamente os mesmos minutos.

Mas duas histórias completamente diferentes.

Talvez essa seja uma das maiores lições da condição humana.

O tempo nunca para.

O relógio marca as mesmas horas para todos.

Mas jamais marca a mesma história.

Enquanto uma família comemorava uma vitória, outra recebia a pior notícia de sua vida.

Enquanto uma criança sorria diante da televisão, outra procurava a própria mãe entre montanhas de concreto.

A vida é assim.

Imprevisível.

Incontrolável.

Às vezes, profundamente injusta.

Capaz de colocar, no mesmo minuto, a maior alegria de um povo e a maior dor de outro.

Naquela quarta-feira, o mundo assistiu a um grande jogo de futebol.

Mas também testemunhou uma das maiores tragédias naturais da história recente da Venezuela.

Quando o árbitro apitou o fim da partida, milhões de pessoas foram dormir felizes.

Naquele mesmo instante, milhares de venezuelanos sequer tinham um lar para onde voltar.

Muitos ainda caminhavam entre os escombros.

Outros esperavam notícias.

Outros apenas choravam.

Naquela quarta-feira…

O relógio não parou.

Continuou marcando os segundos.

Os minutos.

As horas.

Mas jamais contará da mesma forma o que aconteceu naquela noite.

Para milhões de brasileiros, aquele relógio marcou um gol de Copa do Mundo.

Para milhares de venezuelanos, marcou o instante em que suas vidas mudaram para sempre.

Um relógio.

Duas histórias.

Uma de alegria.

Outra de dor.

Que Deus console o povo venezuelano.

Que fortaleça aqueles que perderam familiares, amigos e seus lares.

E que conceda esperança aos que ainda procuram por um abraço, uma resposta ou um milagre.

Porque a maior vitória da humanidade jamais será um gol.

Será a capacidade de nunca perder a compaixão diante da dor do próximo.

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