Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
O “Hã” de cada dia…
Por Gelsiney Schell
Estava sentado no banco da Avenida Rio Grande do Sul quando um senhor parou na minha frente e perguntou:
— O senhor tem horas?
Olhei pra ele e respondi:
— Hã?
O curioso é que eu tinha entendido perfeitamente.
Eu ouvi.
Compreendi.
O cérebro captou a frase inteira.
Mas alguma coisa falhou entre o ouvido e a boca.
Foi ali que percebi:
a epidemia tinha me pegado.
O “hã?” deixou de ser mania.
Virou estado mental.
Hoje ninguém responde mais imediatamente.
Primeiro a pessoa trava.
Depois pergunta:
— Hã?
Só então o cérebro carrega a informação.
E às vezes nem carrega.
Tem gente que escuta tudo perfeitamente, mas responde “hã?” por puro reflexo.
É como se o cérebro precisasse acordar antes de existir.
Um delay humano.
Uma lombada espiritual.
Um loading da consciência.
Na obra isso já saiu do controle.
Esses dias eu estava em cima da laje da casa do Tiago.
Gritei pro servente:
— Alcança o rolo de arame!
E ele:
— Hã?
— O arame!
— Ah tá!
Cinco segundos depois o homem me jogou um pé de cabra.
Não tinha vento.
Não tinha barulho.
Não tinha britadeira.
Só não existia comunicação entre duas almas da mesma espécie.
Na obra do Dico foi pior.
— Zé! Sobe o cimento!
— Hã?
— O cimento, homem!
— Hã?
— A massa!
O sujeito mandou a pá.
Depois desceu a pá.
Depois subiu meio balde de massa.
Depois ficou olhando pra parede como quem traduz hieróglifo egípcio.
Dico respirou fundo, cuspiu pro lado e decretou:
— Nesse ritmo nós terminamos essa obra quinta-feira…
Fez silêncio.
— …do ano que vem.
No hospital a situação já virou emergência médica.
O médico no meio da cirurgia:
— Enfermeira, o bisturi!
— Hã?
— O bisturi!
— Hã?
Mais dez segundos e o paciente vai precisar levantar da maca, pegar o bisturi e entregar pro médico pra cirurgia continuar.
Esses dias minha esposa perguntou:
— Quer café?
E eu:
— Hã?
Ela repetiu:
— Quer café?
E eu larguei outro “hã?” automático, igual papagaio com curto-circuito.
Depois respondi:
— Quero.
Ou seja:
eu tinha ouvido desde o começo.
Mas o “hã?” vem antes do pensamento.
Mais rápido que reflexo.
Mais rápido que internet ruim abrindo vídeo.
E o pior:
o “hã?” começou a interromper até os instintos humanos.
O motorista pensa:
“Preciso frear.”
Mas antes do pé chegar no freio:
— Hã?
Pronto.
Perdeu o para-choque.
No Sul o chimarrão também já começou a fazer vítimas.
O sujeito toma o primeiro gole e percebe:
“Mas bah… isso aqui tá fervendo.”
Só que antes do organismo reagir:
— Hã?
Toma outro gole.
Queima a língua pela segunda vez só pra confirmar cientificamente a temperatura da água.
Agora imagina isso numa guerra.
Front pesado.
Explosão.
Tiro cruzado.
Fumaça.
Os soldados Patrick e Enzo escondidos na trincheira.
Patrick grita:
— Enzo! Se abaixa!
E Enzo:
— Hã?
Mais uma baixa no Exército Brasileiro.
Ou então:
— Patrick! Olha a bala!
— Hã?
Fim da carreira militar.
A humanidade criou a roda.
A eletricidade.
A internet.
A inteligência artificial.
Mas ao mesmo tempo desenvolveu um sistema interno capaz de atrasar qualquer reação humana em três segundos.
O homem das cavernas fugia do tigre imediatamente.
O homem moderno primeiro pergunta:
— Hã?
E talvez esse seja o verdadeiro fim da civilização.
Não a guerra.
Não o meteoro.
Não as máquinas.
Mas o dia em que alguém gritar:
— Corre!
E o planeta inteiro parar, olhar assustado e responder:
— Hã?
Vou encerrar por aqui…
Vai que alguém resolve transformar isso em música.




