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Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell

A Educação que o Sistema Prefere Não Ver…

Por Gelsiney Schell

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Foto: Gelsiney Schell.
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Há uma verdade incômoda que se esconde atrás de relatórios otimistas, gráficos ascendentes e discursos oficiais: a educação brasileira está sendo sustentada por números — não por aprendizagem.

E o mais grave não é o fracasso em si. É a tentativa constante de escondê-lo.

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Segundo a UNICEF, mais de 50% das crianças brasileiras não estão alfabetizadas na idade adequada. O próprio governo federal reconhece que uma parcela significativa dos alunos avança sem domínio básico de leitura e escrita. Esses dados não são opiniões. São diagnósticos públicos.

Ainda assim, o sistema insiste em apresentar uma narrativa de avanço.

Por quê?

Porque, hoje, a educação passou a ser medida mais por indicadores do que por realidade. O que importa não é o que o aluno sabe — é o que o relatório diz que ele sabe.

O financiamento da educação, por meio do FUNDEB, está vinculado a desempenho, fluxo escolar e metas. Na prática, isso gera um incentivo silencioso: manter números positivos. Reduzir reprovações. Melhorar índices. Produzir resultados.

Mesmo que esses resultados não correspondam ao que acontece dentro da sala de aula.

Não se trata de uma conspiração. Trata-se de um sistema que foi estruturado para recompensar aparência de eficiência. E quando a aparência passa a valer mais que a essência, a verdade se torna inconveniente.

Enquanto isso, nas escolas, a realidade é outra.

Crianças chegam ao 5º ano sem saber ler. Turmas inteiras apresentam dificuldades básicas de escrita. Professores enfrentam salas desorganizadas, com alunos sem concentração, sem limites e sem interesse. Não por incapacidade, mas por um conjunto de fatores que o sistema insiste em ignorar.

A Neuropsicologia já aponta os efeitos do excesso de estímulos digitais no desenvolvimento infantil: prejuízos na atenção, impulsividade e dificuldade de controle emocional. Pesquisas conduzidas por universidades como a Harvard University e a Stanford University indicam que a exposição prolongada a conteúdos rápidos e altamente estimulantes está associada à redução da capacidade de concentração sustentada e ao aumento de comportamentos impulsivos em crianças e adolescentes.

Estudos na área de desenvolvimento humano também mostram que déficits nas chamadas funções executivas — responsáveis por autocontrole, planejamento e regulação emocional — tendem a se prolongar ao longo da vida quando não são trabalhados na infância. Pesquisadores da American Psychological Association apontam que dificuldades persistentes nessas áreas estão relacionadas, na fase adulta, a maior propensão a comportamentos de risco, dificuldades profissionais e problemas de convivência social.

Também não entra a fragilidade crescente do ambiente familiar. A psicologia contemporânea é clara ao afirmar que crianças precisam de limites consistentes para desenvolver autocontrole e respeito. No entanto, o que se observa é uma geração criada sob excesso de permissividade, pouca frustração e grande exposição a estímulos rápidos.

A escola, por sua vez, perdeu instrumentos de autoridade. Regulamentações, embora importantes, muitas vezes limitam a ação do professor, que passa a atuar sem respaldo efetivo. O resultado é previsível: a autoridade se enfraquece, o aluno percebe e o ambiente se desorganiza.

Nada disso aparece nos indicadores.

Porque indicadores não captam desordem. Indicadores não medem silêncio quebrado por gritos. Indicadores não revelam alunos que passaram de ano sem aprender.

Eles apenas mostram aquilo que o sistema quer mostrar.

E o sistema quer números positivos.

Não porque rejeite a aprendizagem, mas porque foi estruturado para valorizar resultados mensuráveis, ainda que superficiais. A transformação real é lenta, complexa e difícil de quantificar. Já a transformação de narrativa é rápida, eficiente e politicamente conveniente.

Assim, constrói-se uma educação que funciona no papel e falha na prática.

Uma educação que aprova, mas não ensina. Que avança, mas não forma. Que apresenta progresso, mas acumula lacunas.

E, enquanto isso, o problema cresce em silêncio — ou melhor, cresce em meio ao barulho das salas de aula que já não conseguem esconder o que os números insistem em negar.

A educação que o sistema prefere não ver está diante de todos.

Mas para enxergá-la, é preciso abandonar os relatórios e entrar na sala de aula.

“Se hoje não aprendem limites, respeito e responsabilidade, amanhã não serão apenas adultos despreparados — serão motoristas sem prudência, cidadãos sem empatia, profissionais sem ética e vozes incapazes de conviver com o diferente. E então não será mais um problema da escola, será o retrato de uma sociedade que educou para o caos e se.surpreendeu com as consequências.”

Bui Barbosa Rodapé
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