Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
A Educação Começa Antes da Escola
O debate educacional brasileiro evita discutir o papel da família…
O Brasil discute educação há décadas. Reformam-se currículos, anunciam-se investimentos, ampliam-se avaliações nacionais e multiplicam-se programas pedagógicos. Ainda assim, os resultados permanecem frustrantes. O país segue distante dos melhores sistemas educacionais do mundo e os indicadores de aprendizagem avançam lentamente. O problema é que grande parte desse debate ignora uma pergunta incômoda: que tipo de criança está chegando às escolas brasileiras? Professores de todo o país relatam um fenômeno semelhante — alunos curiosos e inteligentes, mas com enormes dificuldades de concentração, baixa tolerância à frustração, resistência a regras simples e pouca autonomia para lidar com tarefas básicas. Não se trata apenas de capacidade cognitiva. Trata-se, cada vez mais, de formação inicial fragilizada.
Os dados educacionais reforçam esse diagnóstico. No exame internacional Programme for International Student Assessment (PISA), que avalia estudantes de 15 anos em dezenas de países, o Brasil permanece entre os desempenhos mais baixos. Na edição mais recente, cerca de 73% dos estudantes brasileiros não atingiram o nível mínimo considerado adequado em matemática, e grande parte apresenta dificuldades relevantes de interpretação de texto. Os próprios relatórios do PISA revelam algo ainda mais significativo: o desempenho escolar está fortemente associado ao ambiente familiar. Em diversos países, estudantes de famílias com hábitos de leitura, acompanhamento escolar e maior capital cultural podem apresentar até três anos de aprendizagem a mais em comparação com colegas de contextos familiares menos estruturados. Ou seja, o que acontece dentro de casa pesa tanto quanto — ou até mais — do que aquilo que acontece dentro da escola.
Essa constatação não é nova. O sociólogo Pierre Bourdieu já havia demonstrado que o desempenho escolar depende profundamente do chamado “capital cultural”, formado por hábitos cotidianos como leitura, vocabulário familiar, disciplina e valorização do conhecimento. A escola pode ampliar essas bases, mas raramente consegue criá-las do zero. A psicologia do desenvolvimento chega a conclusões semelhantes. Pesquisas da psicóloga Diana Baumrind mostram que crianças educadas em ambientes que combinam afeto com limites claros desenvolvem maior autocontrole, persistência e capacidade de concentração — habilidades essenciais para o aprendizado. Sem limites consistentes, a criança não desenvolve autorregulação, uma das competências emocionais mais importantes para enfrentar desafios e frustrações.
A esse cenário soma-se um fenômeno recente: a hiperexposição digital na infância. Estudos da psicóloga Jean Twenge indicam que o uso intenso de smartphones e redes sociais desde cedo está associado à redução da capacidade de atenção prolongada e ao aumento da ansiedade entre jovens. O cérebro infantil, ainda em formação, passa a se acostumar com estímulos rápidos, recompensas imediatas e picos constantes de dopamina. A escola, por outro lado, exige exatamente o oposto: concentração prolongada, esforço intelectual e capacidade de lidar com frustrações. O resultado é um conflito crescente entre o ambiente em que as crianças vivem fora da escola e aquilo que a aprendizagem exige dentro da sala de aula.
Nos últimos anos, porém, outro sinal dessa fragilidade começou a aparecer também fora das escolas. Hospitais e clínicas especializadas têm relatado aumento nas internações de crianças e adolescentes por crises graves de ansiedade, episódios depressivos e comportamentos de automutilação. Aquilo que inicialmente surge como dificuldade de atenção, baixa tolerância à frustração ou impulsividade emocional na sala de aula, em casos mais extremos evolui para sofrimento psíquico intenso. Professores costumam perceber os primeiros sinais; psiquiatras lidam com as consequências mais graves. Embora as causas sejam complexas, muitos especialistas apontam para um conjunto de fatores que inclui fragilidade na formação emocional, hiperestimulação digital e mudanças profundas nas rotinas familiares.
Nas últimas décadas, ocorreu também uma mudança silenciosa na forma como a sociedade compreende a educação. Gradualmente, responsabilidades tradicionalmente familiares passaram a ser transferidas para a escola. Espera-se hoje que professores ensinem conteúdos acadêmicos e, ao mesmo tempo, transmitam valores sociais, disciplina emocional, organização pessoal, respeito às regras e até habilidades básicas de convivência. Tudo isso em poucas horas diárias de aula. Nenhum sistema educacional foi concebido para assumir sozinho essa tarefa. Como observa o educador Dermeval Saviani, a escola reflete as contradições da própria sociedade. Quando a formação social se fragiliza, a sala de aula se torna o primeiro lugar onde esse problema aparece.
Talvez esteja na hora de o debate educacional brasileiro admitir uma verdade incômoda: melhorar escolas é essencial, mas não será suficiente enquanto continuarmos ignorando o papel formador da família. Nenhuma política pública substitui presença, acompanhamento e limites na infância. Nenhum professor consegue, sozinho, construir aquilo que deveria nascer no cotidiano doméstico. A educação sempre foi uma responsabilidade compartilhada entre escola e família, mas nunca transferível. E enquanto essa realidade continuar sendo evitada no debate público, o país seguirá discutindo metodologias pedagógicas sem enfrentar a raiz do problema.
Porque, no fim, permanece atual uma advertência simples e profundamente perturbadora: não é o mundo que deixaremos para nossos filhos, mas os filhos que estaremos deixando para o mundo.
Referências:
BOURDIEU, Pierre. Os Herdeiros: os estudantes e a cultura.
SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia.
BAUMRIND, Diana. Child Care Practices Anteceding Three Patterns of Preschool Behavior.
TWENGE, Jean. iGen.
OECD. PISA Results.
IBGE – Indicadores Educacionais.
INEP – Relatórios do SAEB e PISA Brasil.
WHO – Adolescent Mental Health.
Por Gelsiney Schell.




