Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
Professores em silêncio: o grito que ninguém quer ouvir
A Educação em Colapso: o descaso que esvazia salas de aula e esgota professores
Enquanto o Brasil debate temas passageiros, uma crise silenciosa se alastra pelas salas de aula: a ausência de professores. Mas não apenas a ausência física — estamos perdendo, todos os dias, a força, o ânimo e a esperança dos educadores.
Recentemente, no Rio Grande do Sul, uma professora foi brutalmente esfaqueada por alunos. Este fato alarmante, que deveria ocupar o centro das discussões públicas, é apenas mais um dentre tantos casos de violência contra profissionais da educação no país. Agressões, ameaças, humilhações — tudo isso tem se tornado, absurdamente, parte do cotidiano docente.
O que mais impressiona é o contraste com outras culturas. Em 2006, durante uma excursão escolar a Foz do Iguaçu, acompanhei um aluno cadeirante da Escola Bento. Ao chegarmos ao elevador panorâmico das Cataratas, um grupo de turistas japoneses, ao perceber que éramos parte de uma escola, abriu espaço imediatamente. Dois deles ajudaram a empurrar a cadeira de rodas, outros me abraçaram. Tudo por respeito — não apenas ao aluno, mas por eu ser o professor. Lá, o educador é reverenciado. Aqui, muitas vezes, é invisível.
Nos municípios de Toledo e Marechal Cândido Rondon, a realidade é cada vez mais crítica. O número de exonerações voluntárias cresce, e os motivos se acumulam: falta de valorização, ausência de diálogo, sobrecarga desumana e um descaso cada vez maior com o piso salarial. Há quem defenda que o problema está nos próprios professores — uma ideia rasa, que ignora as condições às quais eles estão submetidos.
Basta olhar a rotina de uma professora de inglês da rede municipal: cinco escolas por semana, com dez aulas por dia, totalizando até 50 aulas semanais. Alunos com necessidades específicas exigem acompanhamento individualizado, e tudo precisa ser registrado diariamente em sistema. É uma carga incompatível com qualquer noção de dignidade profissional.
A escola tem sido transformada num espaço de contenção social, sem o suporte necessário para isso. Espera-se que o professor ensine, alimente, acolha, oriente, compreenda e ainda seja o responsável por corrigir deformações sociais que a própria estrutura familiar e pública abandonou.
Enquanto isso, as licenciaturas esvaziam-se nas universidades. Cada vez menos jovens se sentem motivados a seguir uma carreira que exige muito e retorna pouco — emocional, financeira e socialmente.
Se não houver uma virada imediata — e séria — na forma como tratamos nossos educadores, estaremos diante de um colapso irreversível. A educação não sobrevive sem professores, e o país não sobrevive sem educação.
É hora de ouvir esse grito silencioso. É hora de olhar para os professores não como números em planilhas, mas como os pilares da transformação social que tanto pregamos.
Por Gelsiney Schell




