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Aprendendo a lidar com as perdas: luto

As fases do luto são cinco e elas podem se apresentar separadamente

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Ótica Esmeralda

Mesmo com toda a tecnologia, a morte ainda é um tabu para todos. Ainda que a medicina e a indústria farmacêutica tenham evoluído consideravelmente, não temos sucesso em frear a morte. Retroceder o tempo também é impossível, o máximo que conseguimos é atenuar alguns sintomas. Inconscientemente e/ou conscientemente, desejamos viver para sempre, o que é impossível. O mais intrigante de tudo isso é que cada um de nós trabalha com o luto e com a morte da sua própria maneira. Nesse artigo iremos abordar o tema:

Aprendendo a lidar com as perdas: luto

Institucional

Um cristão foi ao cemitério visitar o túmulo de sua falecida esposa. Ele havia comprado um buquê de rosas com a cor e com o cheiro que a esposa gostava. Ao chegar no cemitério, ele fez uma pequena reverência diante da lápide de sua amada. Logo após essa reverência, silenciou em uma breve oração, agradecendo a Deus pelo tempo que viveu com a sua esposa. Lágrimas correram. Ele permaneceu em silêncio por mais alguns minutos e, enquanto isso, observava um homem com traços orientais. Nas mãos dele, estava uma pequena tigela com arroz cozido, frutas e cereais. Este homem também havia ido ao cemitério para prestar homenagem a um antepassado que havia partido. Como budista, ele trouxe para seu ancestral aquilo que, em vida, era mais agradável ao seu paladar. Com isso, ele cumpria suas obrigações religiosas de maneira correta. Ele também fez uma reverência diante da lápide, orou em silêncio e depositou as oferendas sobre o túmulo. O cristão, vendo tudo, achou muito estranho. Em uma atitude quase que automática, perguntou para aquele homem: ” Você acredita mesmo que seu antepassado vai se erguer da sepultura para comer toda essa comida? Enquanto pessoas passam fome, você desperdiça alimento?”
Aquele homem, mansamente, respondeu a ofensa dizendo: “Não acredito que meu antepassado irá levantar e comer a comida que eu trouxe, como também não acredito que sua esposa irá sentir o perfume das rosas que você ofereceu a ela”. E assim a conversa foi concluída.
Moral da história: não nos cabe julgar como cada pessoa trabalha com o luto que está vivendo. Precisamos levar em conta a tradição religiosa e os costumes familiares e culturais. Também não podemos demonstrar superioridade com relação ao que acreditamos ou não. Luto e morte são questões profundamente subjetivas e cada um precisa de sua forma e de seu tempo para processar internamente suas perdas.

Precisamos levar em conta alguns aspectos em relação às perdas que são relevantes.
Antes de mais nada, a palavra “luto” significa perda. Pode ser perda de um ente querido, de um emprego, de uma posição, de um objeto ou de um relacionamento. Tudo aquilo que é possível perder é vivenciado com dor sobre a qual chamamos de luto.

Como falamos anteriormente, cada pessoa vai vivenciar e sentir o luto de maneira diferente. É claro que existem circunstâncias comuns a todos que perdem uma pessoa. No entanto, a maneira de lidar com a perda é o que distingue e define cada processo. Também existem diferentes e diversos tipos de luto. Existe o luto esperado de uma pessoa que está lutando com uma doença terminal. Também existe o luto inesperado por um acidente ou uma doença fulminante. Existe o luto dos esquecidos que são vítimas de acidentes ou circunstâncias nas quais o corpo não foi encontrado. Existe o luto da viúves, no qual um dos cônjuges parte. Existe o luto dos inocentes, que é o luto das crianças e dos filhos que partem antes que os pais. Existe o luto espelhado, que é quando uma criança perde o pai antes do nascimento. Existe o luto de pessoas que tiram a própria vida, no qual a dor existencial do que partiu é emocionalmente transferida para quem ficou com o sentimento de impotência e insuficiência por algo que supostamente deveria ter sido feito e não se fez. Existe o luto da culpa, no qual a criança perde a mãe no dia do seu nascimento e, por isso, sente-se culpada como que para que ela vivesse a mãe precisaria partir. Cada luto tem sua peculiaridade e sua forma de ser vivenciado. Entretanto, o luto dos pais que perdem um filho é um dos mais complexos de ser resinificado. Isso acontece porque ele inverte a ordem natural da vida.

Um outro fator que precisamos levar em conta é a compreensão que temos nos dias atuais da dor e da morte. No passado, o luto era vivenciado. A morte não era um segredo e a dor era sentida de maneira ampla e sem questionamentos. Já o nascimento das crianças era coberto de mistérios, segredos e fábulas. Hoje, o processo foi invertido. A morte é cercada de mistérios, máscaras e técnicas que fazem o falecido parecer que está dormindo. A dor é amenizada e quase que anestesiada. O nascimento, por sua vez, deixou de ser mistério até para crianças pequenas. No entanto, a dor da morte é oculta. Vivemos em uma sociedade em que a dor é entorpecida de maneira que ela não possa ser vivida. Isso faz com que nossas dores internas se apresentem de maneira diferente em formas de neuroses e transtornos emocionais.

Como o processo passa por fases, com o luto não seria diferente. Dificilmente podemos mensurar um prazo para que o luto acabe. Porém, é consenso que o luto seja profundamente vivenciado entre seis meses a dois anos.

As fases do luto são cinco e elas podem se apresentar separadamente ou em um sentimento de inadequação;

  1. Negação: Nessa fase literalmente negamos o fato e pensamos que tragédias e perdas nunca vão acontecer conosco. Existe o imaginário de que a pessoa irá aparecer repentinamente. Os sentimentos são como um pêndulo e oscilam potencialmente diante da sua posição anterior.
  2. Raiva: O sentimento da raiva sempre está presente no processo do luto. Questionamentos com relação a quem partiu, a Deus ou a quem estava junto ao falecido são realidades constantes. Transferir a culpa da morte para terceiros ou ainda desenvolver um senso de injustiça sobre o que aconteceu é muito comum nessa fase. A expressão ”se” é a mais utilizada nesse período: Se eu tivesse junto! Se eu tivesse falado! Se eu tivesse impedido!….
  3. Barganha: Esse sentimento é um dos mais nefastos. Ele é a tentativa de autocontrole da situação. De maneira inconsciente, tentamos estabelecer possibilidades emocionais de reverter o quadro, prometendo realizar ações se o quadro for revertido. O sentimento de uma pseudo-onipotência toma conta da vida como um todo.
  4. Aceitação: É a forma de pensamento que procura estabelecer para nós mesmos a forma mais correta de compreensão da morte. “Tinha que ser dessa forma” é a frase chave sobre essa questão. Também é comum resignificar esse sentimento de maneira transcendental, atribuindo ao divino a responsabilidade da morte ou até mesmo ao destino. É nessa fase que se começa a reorganizar a vida de maneira mais geral.
  5. Depressão: É o processo como um todo. Ele se mistura e se envolve em todas as fases. É o que nós chamamos de altos e baixos do processo do luto. Dependendo da pessoa, do seu histórico emocional e familiar, ela pode ser mais acentuada ou amena.

No processo do luto, podemos falar do memorial terapêutico. Em nossa cultura, os cemitérios têm sido esse local. Também é comum pessoas que são cremadas terem suas cinzas lançadas em um lugar significativo para elas em vida. Uma outra forma de memorial que vem ganhando espaço são os cemitérios bosques, onde a pessoa falecida é sepultada em uma urna biodegradável em posição fetal, e no lugar desse sepultamento é plantada uma árvore escolhida pelos familiares ou pela pessoa falecida. A árvore cresce se alimentando dos nutrientes da pessoa sepultada. Essa prática traz a ideia de um ciclo que se encerra e outro que recomeça.

Sobretudo o que dissemos até aqui, vale a pena lembrar que a vida continua, precisa ser vivida em sua plenitude e que cada pessoa tem seu tempo para trabalhar suas perdas da maneira que julgar mais adequado e saudável.

Cesar Tintas
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