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Psicoterapia Integral

Saúde mental e emocional durante a pandemia de Covid-19

O mundo nunca mais será o mesmo depois dessa pandemia

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Mais e mais pessoas estão passando por problemas emocionais. As causas são variáveis e potencializadas.

Repentinamente percebemos que pessoas que nem imaginávamos vivem circunstâncias difíceis no campo da saúde emocional e mental. Inicialmente, tudo parece apenas um cansaço, mas no decorrer do tempo percebemos que é muito mais grave do que aparenta.

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O mais assustador de tudo isso é que a pandemia não é apenas física, ela é emocional e antropológica no que diz respeito às suas sequelas.

Por isso, é pertinente compreendermos esse contexto histórico de maneira contemporânea e humanizada. Nesse sentido, A Liga Acadêmica de Psiquiatria Clínica (LAPC), Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) promoveu há um tempo, um curso sobre saúde mental e emocional durante a pandemia do Covid-19. As palestras ministradas foram de altíssima qualidade com profissionais renomados das diferentes especialidades de saúde mental. Tive o privilégio de fazer parte desse grupo seleto de pessoas que especializaram-se nessa área.

No primeiro dia do seminário, o tema abordado foi: “sintomas depressivos e ansiosos durante o isolamento social”. Quem falou sobre o assunto foi a Dra. Luciana Sarin. Pessoalmente, o que mais chamou a minha atenção foi o fato de que “os jovens, as mulheres e as minorias sociais” estão mais vulneráveis à depressão e à ansiedade. Com relação a essa vulnerabilidade, profissionais da linha de frente que atuam no combate à Covid-19, bem como professores e ministros religiosos, correm grande risco de desenvolver depressão e a longo prazo fadiga crônica, pelo excesso de trabalho. Aliás, a fadiga crônica, pode ocorrer pelos extremos, excesso de trabalho e falta de rotina, ambas são consequências da pandemia.

Nosso segundo encontro teve como tema abordado “Coronavírus: precisamos falar sobre morte e luto”. Quem desenvolveu com maestria esse tópico foi a Dra. Samantha Mucci. Nesse momento, o que mais me chamou a atenção foi o fato de que as mortes da pandemia são eminentes e imediatas. Por vezes, elas são recorrentes na mesma família, o que potencializa ainda mais o sentimento de perda. Isso significa que em espaço de dias ou até mesmo de horas podemos ter duas ou mais pessoas da mesma família vindo a óbito. Da mesma forma, os rituais espirituais e antropológicos de despedida estão sendo “atropelados” durante a pandemia, o que faz com que o processo do Luto se torne mais difícil para as famílias. Quando uma catástrofe acontece, o que nos resta é o luto pelas pessoas que partiram, contudo nesse tempo até isso nos foi tirado. Quando pensamos no luto como processo antropológico, observamos minorias étnicas que precisam desenvolver rituais específicos para que a vida de sua comunidade se desenvolva naturalmente. É o caso dos povos indígenas, que têm todo um aparato em rituais funerais, que por sua vez estão ligados com a continuação da vida. A urgência no sepultamento das vítimas de Covid-19 tira dos familiares essa ritualística. Com relação aos cristãos, a Igreja e seus Ministros têm um papel fundamental em achar caminhos bíblicos, teológicos e poimênicos para que consigam ressinificar o luto e suas cerimônias litúrgicas nesse tempo.

No terceiro bloco do encontro foi trazida a temática: “Sono: Como os sonhos refletem os efeitos da pandemia sobre nossa mente.” A Dra. Natália Mota foi a palestrante da noite. Dentre muitos aspectos, vale ressaltar a possibilidade de se realizar um diagnóstico preciso, utilizando a psiquiatria computacional para diagnóstico de esquizofrenia de maneira preventiva e precoce, observando os sonhos como processamentos de traumas passados. Também foi analisado o efeitos do isolamento social nesse processo do sono e sonho. A longo prazo, podemos ter inúmeros problemas em decorrência da falta do sono e/ou excesso dele por conta da realidade vivida. Cada vez está mais comum ouvirmos pessoas que trocam o dia pela noite e tomam seu café da manhã na hora do almoço e almoçam no café da tarde, lancham na hora da janta e jantam na hora de dormir. Precisamos estar alertas para que nossas rotinas diárias permaneçam, mesmo que estejamos em isolamento parcial ou total.

Nossa última abordagem foi sobre o tema do alcoolismo. O Dr. Tiago Fidalgo trabalhou o tema “Álcool e drogas na quarentena: mudanças no padrão do uso e dependência”. O que ficou evidente nessa abordagem é que precisamos desenvolver coletivamente a consciência de que a dependência química é uma doença e não um problema de caráter. Ela necessita ser tratada de maneira multidisciplinar. Durante o período da pandemia e do isolamento, observa-se 50% de aumento no uso de substâncias químicas e de outras formas de dependência, como a permanência nas redes sociais e uso abusivo da internet. Desses, aproximadamente, 24% das pessoas desenvolverá dependência ativa. Dentro desse aspecto percebemos que mesmo com a proibição de festas e reuniões familiares elas continuam ainda acontecendo de maneira velada. Existem sanções aos comércios e lojas de maneira geral, no entanto observa-se uma alta significante das vendas de bebidas e principalmente de destilados. Caminhamos a passos largos para problemas sociais e de saúde humana.

Tudo isso que observamos até aqui são, para nós terapeutas, ferramentas de diagnósticos dos problemas que iremos enfrentar. O mundo nunca mais será o mesmo depois dessa pandemia e por isso necessitamos estar habilitados para lidarmos com o que está e com o que vem pela frente.

Agradeço a Liga de Acadêmica de Psiquiatria Clínica (LAPC), Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), pela iniciativa de promover esse evento de altíssima qualidade para a saúde mental atual, oportunizando a todos nós, que trabalhamos nessa área, a instrumentalização para um tratamento eficaz e humanizado.

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