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A histórica relação entre os Estados Unidos e a F1

Com o anúncio do GP de Miami, um novo capítulo na história dos EUA e da F1 é inaugurado

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Silveira institucional

No último domingo, 18, a Fórmula 1 tornou público a celebração de um acordo que prevê a realização do Grande Prêmio de Miami pelos próximos 10 anos, a partir de 2022. A realização de uma segunda corrida nos EUA não é um objetivo recente da F1. Há muito tempo já se especulava sobre a realização de uma segunda prova no território estadunidense. Em 2011, por exemplo, houve o anúncio de um GP nas ruas de Nova York. No entanto, por uma série de razões, a corrida nunca aconteceu.

POR QUE FAZER UMA SEGUNDA PROVA NOS ESTADOS UNIDOS?

O Grande Prêmio dos Estados Unidos acontece desde 2012 no Circuito das Américas, localizado em Austin, Texas. Os pilotos gostam do circuito, as equipes gostam das instalações espaçosas que encontram, os fãs da velocidade comparecem em peso e lotam as arquibancadas.

Ocorre que os EUA se mostram um mercado muito interessante para todos os envolvidos na categoria. Desde a fornecedora de pneus, fornecedores de combustíveis, passando por patrocinadores, até chegar às montadoras e à própria direção da F1, que visa atingir maiores números de audiência. Desse modo, faz todo sentido a realização de uma segunda prova por temporada.

A RELAÇÃO ENTRE EUA E F1

O fato é que o anúncio dessa nova prova inaugura um novo capítulo nessa relação de longa data que existe entre os Estados Unidos e a Fórmula 1. A Fórmula 1 começou sua trajetória em 1950 e desde então foram realizadas 1.037 provas. E dessas, 70 foram realizadas no território estadunidense. Isso representa aproximadamente 6,75% de todas as provas. Para exemplo de comparação, tais números ficam atrás apenas de Itália (101), Alemanha (79) e Reino Unido (75). Países com tradição no calendário da F1 como Mônaco (66), Bélgica (65), França (61) e Brasil (47) tem números inferiores aos dos EUA.

A F1 correu em dez circuitos diferentes nos EUA ao longo desses mais de 70 anos de história. Mais do que qualquer outro país! Vamos a eles:

– INDIANÁPOLIS

Antes da F1 surgir, não havia um campeonato unificado para definir quem era o melhor piloto, ou o melhor carro. Haviam corridas espalhadas em que os pilotos se inscreviam e participavam. Em 1950, com o surgimento da F1, a ideia era reunir em um único campeonato as provas mais tradicionais. Com isso, as 500 milhas de Indianápolis, uma das provas mais tradicionais do mundo, figuraram no calendário da F1 entre 1950 e 1960.

É verdade que poucos pilotos europeus se aventuraram no traçado oval de 2,5 milhas de extensão. Destaque para as participações de Alberto Ascari (1952), Giuseppe Farina (1956), e Juan Manuel Fangio (1958). Destes, apenas Ascari conseguiu se classificar para a prova, mas não chegou a completar a prova.

Com o desinteresse dos pilotos pela prova, Indianápolis saiu do calendário em 1960. No entanto, entre os anos de 2000 a 2007, a F1 voltou ao local para correr em um traçado que utilizava partes do circuito oval, combinada com uma sequência interessante de curvas de média e baixa velocidade.

– SEBRING

Em 1959 a F1 optou pela realização de uma segunda prova nos Estados Unidos. Além das 500 milhas, também seria realizado o Grande Prêmio dos Estados Unidos, no circuito de Sebring, na Flórida.

O circuito, localizado em uma antiga base aérea das Forças Armadas dos EUA, se tornou famoso pelas provas de Sports Car sediadas ao longo dos anos. Na época da realização do GP dos EUA, o circuito contava com mais de 8km e era composto, basicamente por longas retas e uma complexa seleção de curvas de alta, média e baixa velocidades.

Este GP, inclusive, ficou marcado pela imagem épica de Jack Brabham arrastando seu carro, que estava sem combustível, até a linha de chegada. O esforço não foi em vão, e o piloto australiano conquistou o título de pilotos daquele ano.

Jack Brabham empurrando seu carro até a linha de chegada. O esforço não foi em vão e o australiano conquistou o primeiro título. Créditos: Reprodução

– RIVERSIDE

Para 1960, a F1 estava de casa nova nos EUA. O circuito californiano de Riverside receberia o Grande Prêmio dos Estados Unidos. Era um local bastante perigoso, com uma combinação entre o asfalto quente, a pista bastante suja pela areia ao redor, e pouca preocupação com a segurança. O traçado era composto por generosas retas e uma combinação de curvas sinuosas, onde cada erro poderia ser fatal.

O circuito californiano de Riverside recebeu a F1 em apenas uma ocasião. Créditos: RacingCircuits.Info

A F1 correu por lá apenas uma vez., O circuito continuou recebendo provas da NASCAR, Can-Am, Trans-Am e outras categorias, até deixar de existir em 1989 para dar espaço a um shopping center.

– WATKINS GLEN

Em 1961, pela terceira vez seguida, a Fórmula 1 correria em um novo circuito nos Estados Unidos. A bola da vez era o Circuito de Watkins Glen, localizado no estado de Nova York. Com um traçado bastante fluido, a pista permaneceu no calendário da categoria até 1980 e teve dois layouts diferentes.

Inicialmente, a pista era composta por uma sequencia muito veloz de curvas e apenas uma freada forte. Em 1971, após uma série de reformas, a pista ficou maior e mais seletiva.

Foi neste circuito que Emerson Fittipaldi conquistou aquela que seria a primeira de muitas vitórias brasileiras na F1. O então piloto da Lotus venceu o GP dos Estados Unidos de 1970 e, com isso, assegurou a primeira de suas 14 vitórias na F1. Além disso, o resultado também garantiu o título póstumo de Jochen Rindt, primeiro e, até hoje, único piloto da F1 a conquistar tal feito.

Mas, nem tudo foram glórias nessa pista. Nos treinos para o GP dos EUA de 1973, François Cevert escapou do traçado e acabou batendo com violência direto nos guard-rails. Com o impacto, seu carro virou de cabeça para baixo e foi arrastado por 100m, degolando o piloto francês.

Watkins Glen foi o autódromo que recebeu a F1 nos EUA por mais vezes. Foram 20 anos ininterruptos. Créditos: RacingCircuits.Info

Como eram comuns os acidentes na pista, a partir de 1975 foi adotada uma chicane antes dos S de alta, e assim a pista seguiu até o ano de 1980, quando deixou o calendário da F1. Desde então, o circuito recebeu provas da Indy, Nascar, IMSA, entre outras categorias.

– LONG BEACH

Em 1976, a F1 acrescentou uma segunda corrida nos EUA ao calendário. Era o GP de Long Beach, realizado na Califórnia. Um circuito muito veloz e bastante ondulado, com longos trechos de aceleração, variações de relevo e curvas dos mais variados tipos. Uma belezinha!

Foi neste circuito que Nelson Piquet conquistou sua primeira vitória, em 1980, na mesma corrida em que Emerson Fittipaldi conquistava o seu último pódio na F1. Com a passagem de bastão, Piquet seguiu como nome-forte do Brasil na F1 pelos próximos anos.

A Fórmula 1 correu no local até 1983, quando divergências contratuais entre os organizadores da prova e os dirigentes da F1 encerraram a passagem da F1 pela pista.




Long Beach foi palco de momentos importantes na F1, como a primeira vitória de Nelson Piquet. Créditos: RacingCircuits.Info

– LAS VEGAS

Com o fim do contrato entre a F1 e Watkins Glen, a F1 rumou para Las Vegas, em Nevada. A pista seria montada no estacionamento de um luxuoso cassino da cidade, o Caesar’s Palace. Apesar dos esforços, a pista era horrível e permaneceu no calendário por apenas duas temporadas – 1981 e 1982.

A pista não tinha nada de especial, tendo um traçado absolutamente genérico e sem identidade, com todas as curvas eram muito semelhantes umas às outras. As corridas, que eram de qualidade duvidosa, serviram, ao menos, para coroar dois campeões mundiais: Nelson Piquet (1981) e Keke Rosberg (1982).

A F1 correu apenas duas vezes em Las Vegas, num traçado pouco criativo e com poucas oportunidades de ultrapassagem. Créditos: RacingCircuits.Info

– DETROIT

Não contente em correr em Long Beach, a Fórmula 1 foi atrás de outra praça para receber suas corridas em solo estadunidense. O alvo? Detroit, capital mundial do automóvel. O acordo saiu do papel, e a cidade recebeu sua primeira corrida em 1982 e a última em 1988.

Inclusive, em 1982 os EUA sediaram três corridas de F1 no mesmo ano: Long Beach, Detroit e Las Vegas. Um feito e tanto, que só foi igualado em 2020, quando a Itália também recebeu três provas: Monza (GP da Itália), Mugello (GP da Toscana) e Ímola (GP da Emília-Romagna).

O circuito, bem complicado e com poucos pontos de ultrapassagem, ficava à beira do Rio Detroit, na fronteira com o Canadá. A pista sediou 7 GPs, sendo que em quatro oportunidades os brasileiros terminaram com a vitória. Nelson Piquet venceu no ano de 1984 e Ayrton Senna venceu em 1986, 1987 e 1988.

Além das quatro vitórias brasileiras, também foi em Detroit que Ayrton Senna carregou a bandeira brasileira pela primeira vez após uma vitória. O gesto ficaria marcado no imaginário popular. Créditos: StatsF1.com

– DALLAS

Com a saída de Long Beach do calendário, em 1983, a F1 buscou outra cidade para sediar uma corrida. Desta vez, a F1 correria em Dallas, no Texas, a partir de 1984. O acordo previa a realização de corridas além de 1984, mas o calor excessivo e a baixa qualidade das instalações (principalmente o asfalto, que se desintegrava com o calor) fez com que a F1 cancelasse o evento para os anos subsequentes. Dessa forma, a única exibição da F1 em Dallas aconteceu em 1984.

E foi uma corrida memorável. Nem tanto pela qualidade da prova em si, e mais pelas imagens épicas de Nigel Mansell tentando empurrar seu carro até a linha de chegada e falhando miseravelmente. O inglês desmaiou a poucos metros da bandeirada.

Além disso, outra história interessante diz respeito a Ayrton Senna. O brasileiro, que era estreante aquele ano, abandonou graças a um pneu furado. Quando retomou aos boxes da Toleman, sua equipe, Senna comentou com seus engenheiros que “o muro havia se mexido” e, por isso, ele havia abandonado. Ninguém deu muita bola no momento, mas depois da corrida Senna conferiu o local e, de fato, o bloco de cimento do muro estava deslocado uns 2cm, o suficiente para mudar seu ângulo e causar o furo no pneu de Senna. Impressionante!

Apenas uma corrida de F1 foi suficiente para atestar que não valia a pena continuar correndo em Dallas. Créditos: StatsF1.com

– PHOENIX

Com o fim do GP em Detroit, novamente a F1 iniciou as buscas de uma nova sede para o GP dos EUA. E, dessa vez, a escolhida foi a cidade de Phoenix, no Arizona, um local bastante seco e árido. Apenas três edições da prova aconteceram no local, entre 1989 e 1991, e todas foram vencidas por pilotos da McLaren. Prost venceu a corrida inaugural, em 1989, e Senna venceu as corridas seguintes.

A pista, que era um amontoado de curvas de 90 graus, não teve muito destaque. Pode-se dizer que o momento mais marcante deste circuito foi o embate que Ayrton Senna e Jean Alesi tiveram na corrida de 1990.

Phoenix ficou famosa pela disputa roda a roda entre Senna e Alesi, em 1990. Créditos: StatsF1.com

– AUSTIN

Anos após a F1 deixar de correr em Indianápolis, novamente a F1 estava buscando uma casa para o GP dos Estados Unidos. E dessa vez, a solução foi diferente: ao invés de correr em circuitos de rua, a F1 visava correr em um local fixo. Com isso, surgiu o Circuito das Américas. A casa mais recente da F1.

A pista, que foi desenhada pelo arquiteto alemão Hermann Tilke, possui trechos inspirados em outros circuitos da F1, como o Red Bull Ring, Silverstone, Istanbul Park e Hockenheim. Além disso, possui longas retas, e uma seleção de curvas de alta e média velocidade.

Com o Circuito das Américas, é possível dizer que, após um longo tempo, a F1 fincou raízes nos EUA novamente. E com a chegada do GP de Miami, a tendência é que a presença da F1 em solo estadunidense seja cada vez maior.

O Circuito das Américas, em Austin, é a atual casa da F1 nos EUA. Créditos: StatsF1.com

PRINCIPAIS PILOTOS

Além de circuitos marcantes, os EUA também presentearam a F1 com dois campeões mundiais: Phil Hill (1961) e Mario Andretti (1978). Hill foi campeão pela Ferrari, e Andretti conquistou seu título pilotando a Lotus.

Além dos dois, os EUA tiveram outros pilotos com carreiras longevas e de sucesso na categoria. Podemos citar, por exemplo, Eddie Cheever, Peter Revson e Dan Gurney.

Cheever é o piloto mais longevo dos EUA na Fórmula 1. Competiu entre 1980 e 1989 e completou 132 corridas por equipes como Arrows, Alfa Romeo, Renault, Ligier, entre outras.

Revson era um grande talento da F1 nos anos 70, mas faleceu precocemente em um acidente causado por uma falha na suspensão de seu Shadow durante testes no ano de 1974 em Kyalami, na África do Sul.

Gurney, por sua vez, além de grande piloto, também deu origem ao primeiro time Estadunidense da F1, a Eagle. A equipe competiu na categoria por apenas três anos, entre 1966 e 1968.

ESTATÍSTICAS:

E, para finalizar, trago algumas estatísticas sobre os EUA na F1:

Dos 1037 GPs realizados até hoje, em 459 deles havia um piloto estadunidense entre os que largaram. Isso representa um total de 44%. Praticamente metade das corridas!

Os EUA detêm um cartel interessante na F1. Além dos dois títulos mundiais, o país possui 33 vitórias, 39 pole positions, 36 melhores voltas e 129 pódios. Estes números incluem, claro, os resultados das 500 milhas de Indianápolis entre 1950 e 1960. Nada mal!

E com a adição do GP de Miami ao calendário, mais linhas serão escritas nessa história.

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