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“Um Príncipe em Nova York 2”: Muito antes do cinema ter Wakanda, havia Zamunda

É divertido e, ao mesmo tempo, mata nossa saudade dessa comédia tão importante do final da década de 1980

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Posto Tonin – Shell Box

A comédia de sucesso “Um Príncipe em Nova York” (Coming to America, EUA, 1988) foi um marco em matéria de representatividade afroamericana, pois, a cultura negra foi celebrada como nunca na tela. Com um elenco praticamente inteiro de atores e atrizes negras, com música e dança africana e também afroamericana, figurinos imponentes e ricos em cores e símbolos da cultura afro, foi um filme pioneiro ao se apresentar em exuberante afrocentrismo e abrindo caminho para outras produções no futuro seguir a mesma fórmula como vimos em “Pantera Negra”. Como se trata de uma comédia dos anos 80, toda esta representatividade tinha em seu recheio também piadas descartáveis, piadas visuais, exageros cômicos e até um pouco de apelo sexual. Afinal, um filme não precisa ser traumático para ser subversivo, ele pode sê-lo apenas cumprindo o propósito de entreter sua audiência.

O filme de 1988 conta a história de Akeem (Eddie Murphy), príncipe herdeiro do trono de Zamunda, um fictício reino africano intocado pelo colonialismo europeu. Descontente com a tradição dos casamentos reais arranjados, vai para o bairro do Queens, Nova York, em busca de uma esposa que fosse capaz de excitá-lo também intelectualmente e amá-lo independentemente do fato dele ser um príncipe de uma riquíssima nação. O filme, Um Príncipe em Nova York 2 (Coming 2 America, Amazon, 2021), é a continuação daquela história trinta anos após o casamento de Akeem com Lisa (Shari Headley).

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O mundo mudou muito nesse intervalo de trinta anos, mas Zamunda parece ter congelado no tempo. O rei Jaffe Joffe (James Earl Jones), sentindo que está em seus últimos dias de vida, tenta garantir uma tranquila transmissão de poderes para seu herdeiro Akeem, que considera mimado e até mesmo afeminado demais para o tradicional sistema patrilinear de Zamunda. O rei acredita que a prova de tal situação de seu filho é a de que ele não gerou um filho, mas três filhas somente. Para resolver a situação, convoca uma espécie de velha xamã (interpretada por Arsenio Hall, que irá, igual no filme de 88, interpretar diversos personagens) que revela para Akeem que ele havia deixado nos Estados Unidos um filho. Este filho ilegítimo evitaria, inclusive, um possível assassinato de Akeem pela nação rival e vizinha governada pelo general Izzi (Wesley Snipes), irmão da noiva preterida que Akeem a deixou latindo e pulando numa perna só antes de partir para a América.

A estranha história de como esse filho foi gerado é uma espécie de enxerto no primeiro filme e também serve de desculpa para que Akeem volte para o Queens. Lá, percebe o quanto os Estados Unidos havia mudado, sobretudo após ter um presidente negro. O bairro não é mais um lixo à céu aberto e até se comenta sobre a forte gentrificação que houve naquele lugar. A única coisa que permanecia igual era a barbearia My-T-Sharp, onde Eddie Murphy e Arsenio Hall revezam-se em diversos personagens. É importante lembrar que Um Príncipe em Nova York de 1988 foi pioneiro na parceria de Eddie Murphy com o maquiador Rick Baker e que tais transformações lhe renderam uma indicação ao Oscar de melhor Maquiagem naquela época. Baker havia chocado o mundo com Um Lobisomem Americano em Londres e faria diversos filmes com Murphy que tão bem conhecemos como o excelente “Professor Aloprado” , o pavoroso “Norbit” ou o ainda mais horroroso “Dolemite”. Baker se aposentou, mas os três personagens da barbearia ainda estão lá: Clarence, Morris e Saul, o judeu de rosto branco. Também encontraremos no Queens, com essa mesma brincadeira com maquiagem, o pastor sexista Jheri (Arsenio Hall) e, mais tarde, iremos encontrar também o horroroso vocalista da banda Chocolate Quente, Randy Watson (Eddie Murphy).

Para evitar Spoilers, somente algumas informações que certamente agradarão os fãs: alguns dos servos são interpretados pelos mesmos atores e atrizes de 1988; o pai de Lisa, Cleo McDowell (Jhon Amos) continua jurando que seu restaurante não é uma cópia do McDonald’s com argumentos como “McFlurby não tem nada a ver com McFlurry, até porque nossa cobertura vai por baixo”, piada que, de certa forma, funcionou em 88 e que ainda funciona em 2021 – e dá pra dar uma boa risada com a versão negra do palhaço Ronald. Os mendigos, quer foram interpretados pelos saudosos Don Ameche e Ralph Bellamy, que já eram uma referência a outro filme de sucesso de 1983, e que foram ajudados por Akeem, conseguiram reerguer seu importante empreendimento industrial que hoje é liderado por um preconceituoso e mimado menino branco, numa rápida brincadeira sobre como as coisas nos Estados Unidos também tem dificuldades para evoluir. E diversos outros personagens do primeiro filme aparecem no segundo, nem que por fotos na estante ou outras rápidas referências visuais. Mas não são todos, há diversos personagens que sentimos falta e que não há sequer menor menção sobre o que houve com eles como o menino que cortava o cabelo quando Akeem chegou no Queens (uma ponta, sem fala, daquilo que foi o primeiro filme de Cuba Gooding Jr) ou mesmo o azarado assaltante interpretado por Samuel L. Jackson. Mas estes personagens fizeram apenas algumas pontas no filme, há, porém, personagens que foram importantes no primeiro e que simplesmente não há qualquer menção no segundo como a irmã da agora rainha Lisa, Patrice McDowell (Allison Dean) ou o antigo síndico interpretado por Frankie Faison ou ainda o ex-namorado de Lisa, interpretado por Eriq La Salle. A única ausência justificada é a de Madge Sinclair que interpretou a rainha Aoleon, falecida em 1995.

Há novos atores e atrizes na trama. Wesley Snipes é, de longe, o pior deles. Num overacting que logo na primeira cena denuncia que dali nada que viesse poderia ser bom. E é o grande ponto negativo, pois nunca conseguimos acreditar que Izzi é, de fato, qualquer ameaça para Zamunda que justificasse o pânico de Akeem – sem falar na sua mais decepcionante cena de luta da sua carreira. Mary (Leslie Jones), faz a mãe do filho ilegítimo de Akeem e coube à ela praticamente todas as piadas sexistas típicas da década de 1980. Também absurdamente exagerada em sua atuação, mas parece que é a única atriz que está realmente se esforçando e que acredita em seu papel, criando uma atuação que se destaca muito em relação às caras e bocas forçadas dos demais personagens. E Lavelle (Jermaine Fowler), que faz o novo príncipe herdeiro tem um personagem mal desenvolvido e que vai mudando sua personalidade ao longo do filme ao sabor dos acontecimentos.

Há diversos problemas no filme, principalmente quando ele nos obriga a comparar com o primeiro. O choque cultural tão bem feito no primeiro, em que Akeem se encanta até com as disparidades sociais dos Estados Unidos na década de 1980, não ocorre de mesma maneira quando Lavelle está em Zamunda. Quem irá lembrar desse importante fator cômico é apenas uma fala de Mary em mais uma de suas piadas visuais sexistas. O “bom mocismo” simplesmente ataca de repente nos personagens, como por exemplo na forma em que se resolve a antipatia entre as meia-irmãs e Lavelle. O ritmo do filme também pode ser visto como um problema, pois há momentos em que se torna vagaroso, sem conseguir sustentar cada reviravolta da trama principal. E as cenas de reação são quase sempre muito forçadas. E a quantidade de Merchandising que o filme tem chega uma hora que irrita.

Os problemas que o filme tem, entretanto, vem acompanhado de qualidades louváveis. Os números musicais atualizam o filme, estão magníficas em sua coreografia e figurino, além de homenagear artistas veteranos como Salt’N’Pepa, Gladys Knight e En Vogue. O humor de botequim dos personagens do Queens ganha bons momentos com Tracy Morgan, que interpreta o tio e figura paterna de Lavelle. Os efeitos em computação gráfica que não funcionariam na tela grande parecem se ajustar perfeitamente para o streaming. E muita coisa que poderia se tornar uma comédia grosseira e obscena, se mantivesse algumas das mesmas fórmulas da década de 1980, acaba sendo bem resolvida – há quem goste de humor físico que envolve genitálias e escatologias, mas para quem não gosta, vai encontrar certa graça diante dessas soluções. Algumas piadas mais atuais também enriquecem o filme, como, por exemplo, aquelas que brincam com temas sensíveis como nepotismo, o escândalo dos sistemas de admissão das universidades americanas, crises de opiáceos, blackface e algumas críticas ao modo de vida e sistema de crenças dos eleitores de Trump. Quanto aos figurinos, há brincadeiras visuais que enriquecem também a cena como aquelas que se assemelham a um cruzamento entre agasalho de treino com direito à merchandising de uma marca esportiva famosa e uma pintura de Basquiat. Dá vontade de pausar o filme para admirar a riqueza de detalhes de cada figurino (desenvolvidos por Ruth E. Carter, a mesma figurinista de “Pantera Negra”).

VEREDITO: o filme tem problemas, mas entrega o que prometeu. É divertido e, ao mesmo tempo, mata nossa saudade dessa comédia tão importante do final da década de 1980. Tem um roteiro mais do que previsível, mas não é nenhum desastre. Não é tão inteligente e tão engraçado quanto o primeiro filme, mas consegue ser caloroso e satisfatório. NOTA 8,0.

  • Pós-Créditos: há, talvez, a maior homenagem ao primeiro filme nos pós-créditos com a ilustre presença de John Legend.

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