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A F1 está inventando onde não é necessário: uma análise sobre a proposta de Sprint Qualifying

A organização da categoria anunciou neste domingo (14) a realização de três eventos para testar um novo método de classificação para as corridas. A ideia é boa?

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A F1 pretende mudar o sistema de classificação. Mas será que é necessário? Créditos: F1/Reprodução

Recentemente, a organização da F1 anunciou o chamado “Sprint Qualifying”. A categoria irá realizar três eventos para testar um novo formato para a classificação. A ideia é tornar o final de semana mais atrativo para os fãs e mais complexo para as equipes.

No ano de 2017, o Liberty Media, um grupo estadunidense que tem muito envolvimento com a área de mídia e entretenimento, como o próprio nome sugere, assumiu o controle da F1. Comprometido a melhorar o espetáculo e deixá-lo com um formato mais atrativo para os espectadores, equipes e patrocinadores, eles já trouxeram algumas mudanças positivas.

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A F1 ampliou sua presença nas redes sociais, transmite conteúdos ao vivo pela internet, tem um documentário na Netflix com os bastidores da categoria, pilotos e equipes tem mais liberdade para usar suas redes sociais… Além disso, 2021 é o primeiro ano em que temos medidas como o teto de gastos e o escalonamento no uso do túnel de vento. E em 2022 um novo regulamento vem aí. Bastante coisa vai mudar de uma vez.

Pois bem. Agora, as mudanças tem como alvo o formato do evento em si. A partir desse ano os treinos de sexta feira terão seu horário reduzido e durarão apenas 1h. Com menos tempo de pista disponível, a tendência é que as equipes aproveitem melhor esses treinos e estejam mais tempo na pista. Isso torna as coisas mais interessantes para o público e também para os patrocinadores, que terão maior exposição de suas marcas na TV. Mas as mudanças não param por aí: a F1 está oficialmente buscando alternativas para a classificação, realizada aos sábados.

Atualmente, a classificação para um GP de Fórmula 1 ocorre da seguinte forma: no sábado à tarde é realizado um treino com duração de uma hora, onde nos primeiros 18 minutos todos os pilotos vão à pista e marcam tempo. Este é o chamado Q1. Os 15 mais velozes passam para a segunda parte da classificação, e os cinco mais lentos largam entre a 16ª e a 20ª posição no domingo. No Q2, 15 minutos de treino, e os 10 mais rápidos seguem para a parte seguinte. Os cinco mais lentos largam entre a 11ª e a 15ª posições. Na última parte, 12 minutos para os 10 mais velozes marcarem seus tempos e definirem a posição de largada na corrida de domingo.

Aparentemente insatisfeitos com o formato atual, a proposta é que em três corridas do ano a F1 faça a classificação em um formato de corrida curta – com aproximadamente 100 km de duração, contra os tradicionais 300 km de uma corrida normal. A única exceção é o GP de Mônaco, que normalmente tem 260 km. Os pilotos marcam tempo na sexta, e o resultado deste treino define a ordem de largada do Sprint Qualifying, realizado no sábado.

Esse evento teste terá algumas diferenças em relação às corridas propriamente ditas:

1) os três primeiros colocados receberão pontos, apenas. Três pontos para o primeiro, dois pontos para o segundo, e um ponto para o terceiro colocado. Atualmente os 10 primeiros marcam pontos, com o 1° marcando 25 e o 10° marcando 1;

2) os pilotos não são obrigados a trocar de pneu. Atualmente, eles precisam usar dois compostos diferentes de pneus em corrida;

3) o DRS (Sistema de Redução de Arrasto, também conhecido como Asa-Móvel) poderá ser ativado a partir do momento em que o piloto estiver a 2s de distância para o piloto da frente. Normalmente essa distância é de 1s;

4) não haverá pódio ao término do evento. A ideia é que o Sprint Qualifying não concorra com a corrida de domingo.

O resultado da Sprint Qualifying é quem determina a ordem em que os pilotos largarão para a corrida de domingo – e a proposta inicial é que os testes ocorram nos GPs da Inglaterra, da Itália e do Brasil.

A pergunta que não quer calar é: a F1 acerta ao buscar esse tipo de mudança?

Na minha humilde opinião, o Sprint Qualifying será interessante de assistir. As condições propostas devem fazer com que esse evento tenha muita ação na pista. Porém, será algo bastante artificial, já que é o DRS (algo que já é artificial em si) que terá papel fundamental, podendo ser usado em uma janela diferente do normal. Um ponto interessante é que veremos os carros com pouca gasolina e pneus novos, algo que raramente acontece nos domingos. Legal, porém artificial.

No meu entendimento, a F1 está mexendo onde não precisa. O formato da qualificação da F1 não precisa ser revisto. Ou, caso entendam que carece de uma revisão, acredito que o formato proposto não seja o mais adequado. E, para não fazer uma crítica vazia, deixo aqui uma sugestão:

Olhando para o passado da categoria, o sistema de classificação utilizado entre 2003 e 2004 era perfeito para tornar as coisas mais animadas e promover um suspense maior. Na sexta, os pilotos realizavam um treino onde cada um tinha direito a apenas uma volta rápida. A ordem de entrada na pista era determinada pela classificação no campeonato. O piloto que estivesse na liderança do campeonato era o último a marcar tempo.

Michael Schumacher em ação durante os treinos para o GP da Inglaterra. O alemão largou em 5° lugar após cometer um erro em sua volta rápida no sábado. Créditos: F1/Reprodução

Na classificação, no sábado, o piloto com a melhor posição no treino de sexta entrava na pista para marcar tempo por último, tendo a vantagem de pegar a pista mais emborrachada, mas correndo o risco de um treino começar com pista seca e chover durante a sessão. Era uma forma interessante e justa de bagunçar o grid de largada das corridas. Se o piloto errasse naquela volta, ele começaria a corrida no final do pelotão. Era necessário ser rápido e preciso em um momento como este, em que os nervos estão à flor da pele.

Claro, para realizar algo nesse sentido nos dias de hoje (estamos falando de algo ocorrido há quase 20 anos) seria necessário realizar algumas adaptações para encaixar a proposta no regulamento atual, mas, ainda assim, algo bem mais tranquilo do que os planos que foram apresentados recentemente.

A proposta da Liberty Media, que é polêmica, gerou controvérsia em pilotos e equipes. Sebastian Vettel deu a seguinte declaração: “Não entendo o que há por trás das corridas de curtas distâncias. Por que você deveria fazer uma pequena final antes da final? Se você introduz algo assim, é porque você quer encobrir outro problema”, declarou Vettel.

Na Mercedes, Toto Wolff se mostrou favorável ao experimento: “Devemos estar abertos a experiências, mas temos de pensar bem sobre como podemos melhorar o espetáculo. As corridas sprint não são ruins em si. O DTM [a Stock Car Alemã] tem, dobrou seus pontos de audiência”, comentou o dirigente austríaco.

George Russell, piloto da Williams, tem um ponto de vista interessante sobre o assunto. Ele sugere que a organização da F1 devesse ter mais paciência, já que em 2022 um novo regulamento entra em vigor e espera-se que os carros permitam mais disputas e ultrapassagens. Devo dizer que concordo com o jovem britânico.

Pelo visto, a F1 pretende emular o GP da Itália de 2020, especialmente após a bandeira vermelha causada pelo acidente de Charles Leclerc, quando houve uma relargada a 28 voltas do fim. O que se viu naquele dia foi uma corrida curta e bastante empolgante. No entanto, o que tornou aquele dia tão especial foi, justamente, o improvável. Não foi algo forçado. Um pit stop, um Safety Car na hora certa e uma bandeira vermelha alçaram Gasly para o topo do pelotão, e o resto é história.

Se vai dar certo? Só o tempo dirá.

Relargada do GP da Itália de 2020. Estaria a F1 buscando reeditar a fórmula que deu a Pierre Gasly uma vitória inesperada? Créditos: F1/Reprodução

A F1 deve, sim, realizar esses testes, mesmo que seja para chegar à conclusão de que não funciona. Mas, na minha visão, entendo que o formato não merece prosperar por tornar as coisas muito artificiais. E você, o que achou da ideia?

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