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Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell

ENCONTREI UM ANJO NO CENTRO DE PORTO ALEGRE?

Por Gelsiney Schell

Publicado

em

Foto: Gelsiney Schell.
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Há encontros que não cabem dentro da lógica.
Eles não pedem explicação — apenas permanecem dentro da alma.

Certa vez, no centro de Porto Alegre, fim de tarde comum, daqueles em que a cidade parece cansada com todo aqueles movimento, algo interrompeu meu caminho.

Ortocolchoes

Debaixo de uma marquise, sentada silenciosamente, estava uma senhora de aproximadamente oitenta anos.

Cabelos brancos.
Olhos azuis claros.
Postura tranquila, quase serena demais para quem pedia esmola.

Passei por ela.

Mas não consegui seguir.

Algo — impossível de explicar — puxou meu coração de volta. Não foi pena. Não foi obrigação. Foi um chamado silencioso.

Caminhei até a esquina, comprei algumas frutas numa banca e retornei.

Entreguei a ela.

Não houve conversa longa. Não houve discurso religioso. Apenas um olhar profundo, daqueles que parecem atravessar o tempo.

Depois daquele dia, nunca mais a encontrei.

E a pergunta ficou:

Aquela senhora poderia ser um anjo?

A Bíblia e os encontros inesperados

A Bíblia nos alerta sobre algo extraordinário:

“Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, sem o saber, hospedaram anjos.”
(Hebreus 13:2)

Essa passagem não fala de metáforas.
Ela fala de realidade espiritual.

Segundo as Escrituras, anjos não aparecem apenas com asas brilhantes e trombetas celestiais. Muitas vezes, eles surgem como pessoas comuns.

Abraão recebeu visitantes sem saber quem eram (Gênesis 18).
Ló acolheu estrangeiros que depois se revelaram mensageiros divinos (Gênesis 19).
Tobias caminhou ao lado de um homem comum que mais tarde revelou-se o anjo Rafael (Tobias 12:15).

A mensagem é clara:

O divino costuma chegar disfarçado de simplicidade.

Quantos anjos cruzam nosso caminho?

Talvez mais do que imaginamos.

O homem que nos pede ajuda.
A mulher esquecida na calçada.
O estranho que desperta compaixão sem motivo aparente.

E se os anjos não viessem para serem reconhecidos, mas para revelar quem nós somos?

Porque, diante deles, não é o céu que é testado — é o nosso coração.

Jesus ensinou algo ainda mais profundo:

“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes.”
(Mateus 25:35)

E quando perguntaram quando haviam feito isso, Ele respondeu:

“Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”
(Mateus 25:40)

Talvez o maior mistério não seja encontrar um anjo.

Talvez seja perceber que cada gesto de misericórdia é um encontro com o próprio Deus.

E se encontrássemos Deus?

Imagine por um instante.

Deus sentado numa calçada.
Deus pedindo ajuda.
Deus vestido de simplicidade.

Reconheceríamos?

Ou passaríamos apressados?

Pior ainda… e se fizéssemos cara de desprezo?
E se virássemos o rosto?

A Bíblia também nos alerta:

“O homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração.”
(1 Samuel 16:7)

Talvez Deus não venha para impressionar nossos olhos, mas para revelar nossas escolhas.

O verdadeiro milagre

Nunca mais vi aquela senhora.

Mas algo mudou dentro de mim naquele dia.

Porque talvez o milagre não tenha sido encontrar um anjo.

Talvez o milagre tenha sido ser chamado a agir como humano.

Quem sabe ela fosse apenas uma senhora necessitada.

Quem sabe fosse um anjo.

Ou talvez — e isso seja ainda mais profundo —
Deus estivesse apenas observando se ainda somos capazes de amar sem explicação.

Desde então, carrego uma certeza silenciosa:

Os anjos talvez caminhem pelas ruas, sentem-se nas calçadas, escondem-se na fragilidade dos esquecidos.

E cada encontro é uma pergunta invisível:

Você reconhece o céu quando ele passa por você?

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