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Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell

Educação não se faz apenas dentro da escola

Por Gelsiney Schell

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Foto: Gelsiney Schell.
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O encontro realizado em Pato Bragado, no dia 1º de abril de 2026, precisa ser compreendido como algo maior do que uma simples reunião escolar. Trata-se de um gesto raro de lucidez pública: enfrentar um problema educacional pela origem, e não apenas pelos seus efeitos.

Ao reunir pais, educadores e profissionais da rede de proteção para discutir os impactos do uso excessivo de telas na infância, o município deu um passo que muitos ainda evitam dar — reconhecer que a crise educacional brasileira não começa dentro da escola.

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Ela começa fora dela.

Durante anos, a sociedade acostumou-se a transferir à escola responsabilidades que pertencem também à família e ao ambiente social. Quando surgem dificuldades de aprendizagem, comportamento agressivo, falta de concentração ou desinteresse, o olhar se volta imediatamente ao professor, ao método pedagógico ou à estrutura escolar.

Mas a pergunta essencial raramente é feita: em que condições emocionais, sociais e familiares essas crianças estão sendo formadas antes mesmo de chegar à sala de aula?

Hoje, uma parte significativa da infância está sendo mediada por telas. O celular tornou-se companhia constante, entretenimento permanente e, em muitos casos, substituto silencioso da presença adulta. Crianças em pleno desenvolvimento cerebral passam horas submetidas a estímulos rápidos, recompensas instantâneas e interações artificiais, enquanto experiências humanas fundamentais — convivência, diálogo, frustração, paciência e construção de vínculos — tornam-se cada vez mais raras.

O resultado começa a aparecer de forma evidente: aumento da agressividade, baixa tolerância à frustração, dificuldade em respeitar limites, ansiedade precoce e fragilidade emocional crescente.

Não se trata de demonizar a tecnologia. O problema não é o celular existir. O problema é a ausência de limites, orientação e participação familiar no uso dessas ferramentas.

É preciso afirmar com clareza: nenhuma política educacional alcançará resultados reais enquanto ignorar o ambiente em que a criança vive fora da escola.

A educação sempre esteve ligada aos interesses do Estado. O sistema educacional organiza comportamentos, molda percepções e prepara indivíduos para funcionar dentro da estrutura social vigente. No entanto, uma educação verdadeiramente eficaz não pode limitar-se à adaptação social; ela precisa formar consciência crítica, autonomia intelectual e responsabilidade humana.

E isso não se constrói apenas com currículo escolar.

Quando os pais se afastam do processo educativo — especialmente durante a infância, período que se estende aproximadamente até os 12 anos — abre-se um vazio formativo perigoso. Esse vazio não é preenchido pela escola, nem pelo Estado, nem pela tecnologia. Ele passa a ser ocupado por estímulos externos que influenciam valores, emoções e comportamentos sem mediação humana.

Ignorar essa realidade é condenar uma geração inteira a crescer conectada, porém desconectada da própria capacidade crítica e relacional.

O mérito de Pato Bragado está justamente em romper o silêncio institucional sobre esse tema. Ao chamar a sociedade para o debate, o município demonstra que educação funcional não nasce apenas de investimentos estruturais ou mudanças curriculares, mas da coragem de discutir hábitos sociais, responsabilidades familiares e modelos de infância que estamos construindo.

O que falta agora é ampliar esse movimento.

Secretarias de Educação precisam assumir protagonismo, promovendo debates permanentes, formação parental, orientação comunitária e participação ativa das famílias. Sem essa mobilização coletiva, continuaremos tratando sintomas enquanto a raiz do problema se aprofunda.

A educação do futuro não será definida apenas pela tecnologia disponível, mas pela qualidade da presença humana oferecida às crianças.

Se quisermos uma sociedade crítica, equilibrada e verdadeiramente livre, precisamos começar pela infância — e isso exige coragem política, responsabilidade familiar e consciência social.

Pato Bragado deu o primeiro passo.

Resta saber quem terá coragem de seguir o caminho.

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