Fale com a gente
CHOPP Providência

Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell

A vida que imaginamos ter perdido

“Entre fitas rebobinadas e telas infinitas”

Publicado

em

Foto: Gelsiney Schell.
XIAOMI 6 Lite

“Gostaria de ter nascido nessa época.”
A frase de um jovem não fala só do passado — ela denuncia uma ausência no presente.

Há algo de profundamente humano em olhar para trás com ternura, mesmo quando esse “trás” não nos pertence. Os anos 80, por exemplo, sobrevivem menos como realidade e mais como atmosfera. São luzes de neon difusas, fitas rebobinadas com paciência, músicas que pareciam durar mais do que o próprio tempo. Não importa tanto o que de fato aconteceu ali — importa o que sentimos ao imaginar.

Alpha Investimentos

Talvez a grande diferença entre aquelas décadas e os anos 2000 não esteja apenas na tecnologia ou nos costumes, mas na textura da vida. Antes, o tempo escorria mais devagar — ou assim acreditamos. Havia silêncio entre um acontecimento e outro. Intervalos. Espaços onde a expectativa podia crescer, onde o desejo tinha tempo de se formar. Hoje, tudo chega antes mesmo de ser desejado. E, quando tudo é imediato, quase nada se torna inesquecível.

A felicidade, nesse cenário, também muda de forma. Não necessariamente era maior — mas parecia mais nítida. Como uma fotografia com menos pixels, porém mais contraste. Um encontro marcado carregava o peso doce da espera. Uma música não competia com milhões de outras; ela ocupava um lugar inteiro dentro de alguém. Havia menos, e justamente por isso, havia mais.

Mas a nostalgia é uma espécie de poesia involuntária. Ela apaga as arestas, suaviza as dores, escolhe o enquadramento mais bonito e descarta o resto. Não lembramos do tédio, da frustração, das limitações — ou lembramos com um filtro que as torna quase charmosas. O passado, revisitado, vira narrativa. E toda narrativa quer fazer sentido, quer confortar.

Quando alguém deseja ter vivido outra época, talvez esteja, na verdade, dizendo: “queria sentir as coisas de um jeito diferente”. Um jeito menos apressado, menos fragmentado, menos atravessado por comparações invisíveis. Não é sobre saudade de um tempo — é sobre saudade de uma experiência de existir.

E há, nisso tudo, uma delicada ironia: daqui a algumas décadas, alguém olhará para o nosso presente com os mesmos olhos encantados. Vai imaginar que havia algo de especial em viver “nos anos 2000”, como se estivéssemos cercados por uma magia que hoje nos escapa. Vai transformar nossas rotinas em estética, nossas ansiedades em curiosidade histórica, nossas vidas comuns em cenário de desejo.

A nostalgia não mente — mas também não diz toda a verdade. Ela é menos um retrato e mais um sentimento. Uma tentativa de segurar o tempo com as mãos, mesmo sabendo que ele sempre escorre.

No fundo, talvez não sintamos falta de uma década específica.
Sentimos falta daquilo que acreditamos que seríamos dentro dela.

Por Gelsiney Schell

Bui Barbosa Rodapé
Continue Lendo
Mega-Sena: Concurso 3014
27 30 35 40 44 58
Atualizado: 2026-06-04 04:12:07
Estimativa próximo concurso:
R$ 32.000.000,00
Próxima data: 06/06/2026

Lotofácil: Concurso 3702
02 03 05 09 13 14 15 16 17 18 20 21 22 23 25
Atualizado: 2026-06-04 04:12:09
Estimativa próximo concurso:
R$ 10.000.000,00
Próxima data: 05/06/2026

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Otica 1