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CHOPP Providência

Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell

A Insustentável Leveza do Homem Moderno

Por Gelsiney Schell

Publicado

em

Foto: Gelsiney Schell.
Patinete Foston

Algo silencioso está acontecendo com a sociedade — e talvez ainda não tenhamos coragem suficiente para reconhecer.

Nunca tivemos tanta liberdade, tantas escolhas e tantas possibilidades de vida. Paradoxalmente, nunca vimos tantas pessoas ansiosas, emocionalmente cansadas e em busca de sentido. O progresso trouxe conforto, informação e autonomia, mas não respondeu às perguntas essenciais que acompanham o ser humano desde sempre: quem somos, por que existimos e para onde vamos.

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O problema do nosso tempo não é apenas econômico, político ou tecnológico. É existencial. E, em grande parte, espiritual.

O homem moderno aprendeu a viver como se Deus não fosse necessário. Esse afastamento não aconteceu de forma brusca. Foi gradual. Deus deixou de ser referência central e passou a ocupar um espaço secundário na vida cotidiana. Para muitos, tornou-se apenas tradição cultural.

Quando a dimensão espiritual enfraquece, algo muda também nas relações humanas. A liberdade individual passou a ser o valor máximo da sociedade contemporânea. Cada pessoa constrói sua própria verdade, seus próprios valores e sua própria identidade. À primeira vista, isso parece evolução. Contudo, observando o cotidiano, percebemos um fenômeno inquietante: pessoas cada vez mais livres e, ao mesmo tempo, cada vez mais perdidas.

Vivemos a era do provisório.

Relacionamentos terminam diante das primeiras dificuldades. Amizades tornam-se superficiais. Empregos e projetos são abandonados rapidamente. Sonhos são acumulados, mas raramente amadurecem. Tudo pode ser substituído — inclusive pessoas.

A palavra compromisso passou a causar desconforto. Permanecer exige renúncia, responsabilidade e paciência, virtudes que entram em conflito com uma cultura baseada no imediatismo e na satisfação instantânea.

O resultado aparece de forma silenciosa: aumento da ansiedade, sensação de vazio e medo constante do futuro. Nunca se falou tanto em saúde mental e, ao mesmo tempo, nunca se percebeu tamanha fragilidade emocional coletiva.

Séculos atrás, o livro bíblico de Eclesiastes já descrevia essa experiência humana ao afirmar que tudo pode se tornar “vaidade e correr atrás do vento”. A expressão permanece atual porque revela uma verdade simples: sem um propósito maior, até as conquistas mais desejadas perdem rapidamente o significado.

O ser humano carrega dentro de si uma inquietação que o material não consegue preencher completamente. Conquistas profissionais, reconhecimento social e estabilidade financeira são importantes, mas não respondem à necessidade mais profunda do coração humano: o desejo de eternidade.

A modernidade tentou substituir transcendência por autonomia absoluta. O indivíduo tornou-se responsável por definir sozinho o sentido da própria existência. O resultado não foi libertação plena, mas um peso invisível: viver sem referências permanentes.

A liberdade, quando desconectada de propósito, transforma-se em desorientação.

Sem uma visão de permanência, tudo se torna descartável. Relações passam a durar apenas enquanto oferecem satisfação imediata. Identidades mudam constantemente. Vive-se intensamente o presente, mas teme-se profundamente o futuro.

Não é coincidência que cresçam sentimentos de solidão e desesperança. Ao retirar Deus do centro da existência, o homem passou a carregar sozinho o peso de explicar a vida e enfrentar a finitude.

A tradição cristã apresenta uma perspectiva diferente. Afirma que o ser humano não foi criado apenas para viver alguns anos entre o nascimento e a morte, mas para a eternidade. A fé não elimina as dificuldades da vida, mas oferece sentido para atravessá-las.

A esperança da vida com Deus muda o olhar sobre a existência. Se a vida continua além deste mundo, então valores como amor, fidelidade, caráter e responsabilidade deixam de ser apenas convenções sociais e passam a ter significado eterno. O sofrimento encontra propósito. O compromisso deixa de ser prisão e torna-se construção.

Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja acreditar que o ser humano pode viver plenamente sem transcendência. O progresso ampliou horizontes materiais, mas não substituiu a necessidade espiritual que acompanha a humanidade desde suas origens.

A crise contemporânea não é falta de liberdade. É falta de sentido.

Sem propósito, a liberdade transforma-se em vazio. Sem valores permanentes, a sociedade perde direção. Sem Deus, o homem corre o risco de tornar-se estrangeiro dentro da própria existência.

A leveza da vida moderna — livre de limites e compromissos duradouros — parece sedutora. Contudo, aquilo que é leve demais não cria raízes. E o que não cria raízes não se sustenta.

Talvez seja essa a ferida que evitamos tocar: não estamos sofrendo por excesso de dificuldades, mas pela ausência de propósito.

O ser humano precisa mais do que progresso. Precisa de esperança. Precisa saber que sua existência não termina no silêncio do túmulo, mas encontra continuidade na presença de Deus.

Sem propósito, a vida torna-se leve demais.

E a leveza, quando não possui sentido, torna-se insustentável.

Bui Barbosa Rodapé
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