Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
Era da Confusão Moral e Mental
Por Gelsiney Schell
Quando todo mundo fala, poucos realmente sabem — e uma sociedade inteira começa a confundir opinião com conhecimento.
Basta caminhar por qualquer rua de Marechal Cândido Rondon para perceber algo curioso sobre o nosso tempo. Pessoas atravessam a rua olhando para o celular, motoristas dirigem com os olhos divididos entre o trânsito e a tela, e nas mesas de cafés e lanchonetes muitas conversas foram substituídas pelo silêncio iluminado dos aparelhos.
Vivemos na era da informação — mas também na era da confusão.
Nunca tivemos tanto acesso a notícias, opiniões, vídeos e debates. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil separar conhecimento verdadeiro de simples palpite. Um agricultor experiente que passou a vida entendendo a terra pode ser confrontado por um vídeo de quinze segundos dizendo como plantar. Um médico que estudou décadas pode ser contestado por um influenciador digital que aprendeu medicina em um minuto de internet.
Esse fenômeno tem nome entre estudiosos da Sociologia e da Psicologia: crise da autoridade do conhecimento.
Em outras palavras, entramos em uma época em que todo mundo pode falar — mas poucos ainda se preocupam em saber.
A internet trouxe algo extraordinário: a democratização da informação. Hoje qualquer pessoa tem voz, qualquer cidadão pode expressar suas ideias, opiniões e interpretações do mundo. Em princípio, isso é um avanço histórico. Nunca tantos puderam participar do debate público.
Mas essa mesma democratização trouxe um risco silencioso.
Nem sempre quem tem razão é quem mais estudou sobre determinados assuntos. Na lógica das redes, quem molda opiniões muitas vezes não é quem estudou mais, nem quem conhece mais profundamente um assunto — é quem possui mais seguidores, mais curtidas, mais visualizações.
Assim, a influência deixa de ser determinada pelo conhecimento e passa a ser determinada pela popularidade.
E quando popularidade substitui conhecimento, nasce um ambiente onde a verdade disputa espaço com o improviso, e a opinião mais barulhenta muitas vezes fala mais alto do que o pensamento mais sólido.
É nesse ponto que a sociedade começa lentamente a entrar em algo mais profundo que simples desinformação: uma confusão moral e mental.
Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja produzir mais informação, mas recuperar algo que nossos avós conheciam muito bem: o valor do silêncio, da reflexão e do conhecimento verdadeiro — porque uma sociedade que desaprende a pensar corre o risco de se perder mesmo estando cercada de informação.




