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Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell

Viagens entre as curvas…

Por Gelsiney Schell

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em

Foto: Gelsiney Schell
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Ser motociclista não é ter uma moto. Muito menos ter uma moto cara. Não é vestir jaqueta de couro importada, usar bota de marca famosa ou desfilar com uma Harley cromada brilhando ao sol. Ser motociclista não se mede em cilindradas, não se mede em reais investidos, não se mede em acessórios. Já vi homens com motos de cem mil reais que nunca atravessaram o próprio medo. E já vi homens com uma 100 ou 125 cilindradas que carregavam mais estrada na alma do que muitos carregam no motor. Motociclista não se faz no poder de compra. Se faz no poder do aprendizado.

Motociclista não nasce pronto. Nasce na experiência. Nasce quando você percebe que entre a partida e a chegada existe algo que não cabe em palavras. Você sai para rodar 25 quilômetros e volta diferente. Você roda 5 mil quilômetros e descobre que a mudança não foi na paisagem — foi dentro de você. A estrada ensina o que nenhuma sala com televisão ensina. Ensina paciência, ensina mecânica, ensina humildade, ensina que o mundo não gira em torno do seu ego.

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Desde 1998 eu rodo de moto. São 28 anos atravessando sol, chuva, barro, curvas, serras, retas intermináveis e cidades desconhecidas. Em 28 anos nunca tomei uma multa. Não porque sou perfeito. Mas porque escolhi ser responsável. Motociclismo não é imprudência. Não é sair cortando trânsito como se a vida fosse descartável. Motociclismo é consciência em movimento. É saber que velocidade não é prova de coragem. Coragem é voltar para casa inteiro.

Sempre viajei com as finanças apertadas. Nunca tive seguro completo, nunca tive os equipamentos mais caros do mercado. Mas nunca faltou o essencial: capacete, bota, jaqueta, capa de chuva, responsabilidade. Não se trata de ter tudo. Trata-se de usar o que tem com respeito. O problema nunca foi a falta de dinheiro. O problema sempre foi a falta de juízo — e isso não se compra em loja nenhuma.

Já encontrei gente arrogante na estrada. Já encontrei gente estúpida. Mas encontrei infinitamente mais gente boa. Gente que para para perguntar se está tudo bem. Gente que nunca viu você na vida e, ao cruzar na serra, faz o sinal de V com a mão esquerda apontada para o chão. Um gesto simples. Mas ali existe uma mensagem inteira: “conte comigo”. Motociclistas não se conhecem, mas se reconhecem.

Na última viagem fomos em três. Houve um “vai” antes da partida. Não foi um “vai” impaciente. Foi um “vai” com amor. Um “vai” que carregava junto um “volta”. E quando alguém diz “vai” assim, você entende que liberdade não é abandono. É confiança. Pegamos sol, pegamos chuva, rodamos à noite, atravessamos ferryboats, passamos por cidades pequenas, ajustamos corrente em oficina de amigo, dormimos sob telhado improvisado na Estrada da Graciosa enquanto a Mata Atlântica respirava sons que a cidade nunca ouve. Houve passos na floresta. Houve barulhos que não sabíamos de que animal vinham. Poderíamos ter ido para um hotel. Ficamos. Porque o medo não nos governa. A imprudência também não. Ficamos porque estávamos juntos.

Subimos a Serra do Rio do Rastro como quem sobe em direção ao próprio limite. Cada curva era uma conversa silenciosa com Deus. Não porque a montanha seja sagrada. Mas porque ali você percebe o quanto é pequeno e, ao mesmo tempo, o quanto é capaz. No alto do Cânion do Espraiado, sentados à beira de um abismo de quase 700 metros, entendemos algo definitivo: ser motociclista não é ter uma moto perfeita. É ter uma moto onde caiba sua bagagem, sua vontade de andar e tudo o que você aprendeu a ser — respeito, humildade, humanidade, parceria.

Voltamos para casa com as motos sujas de barro, areia, poeira e chuva. Roupas molhadas. Bagagem pingando água. Mas voltamos mais amadurecidos. Aprendizados que ninguém adquire maratonando séries. Amizades do Nordeste, do Sul, do Norte. Cada um deixou algo em nós. A estrada dá tudo o que ela tem: sol, frio, risco, desconforto, beleza, silêncio, barulho, medo e êxtase. Você escolhe o que fazer com isso. Pode voltar reclamando. Ou pode voltar maior.

Dizem que motociclista é louco. Eu discordo. Louco é deixar a vida passar sentado no sofá, anestesiado pela tela, intoxicando o corpo e a mente, chamando isso de segurança. O perigo não é sonhar. O perigo não é andar de moto. O perigo é abandonar o sonho. O perigo é nunca sair do lugar.

Mas há uma diferença clara: motociclista não é motoqueiro. Motoqueiro é o esboço do que alguém pode se tornar quando confunde liberdade com irresponsabilidade. Motociclista é aquele que entende que cada curva exige equilíbrio. Que cada acelerada exige consciência. Que cada viagem exige caráter.

Se for para rodar, rode com honra.
Se for para acelerar, acelere com responsabilidade.
Se for para viver, viva de verdade.

Porque no final, a pergunta não será quantos quilômetros você rodou.
Será quem você se tornou enquanto rodava.

E se um dia eu virar estatística, que nunca seja por ter vivido demais.
Que nunca seja por ter vivido de menos.

Ser motociclista é isso.

É atravessar a vida de frente.
Com barro na moto.
Com fé no peito.
Com caráter na estrada.

O resto… é só cilindrada.

Agradeço ao Tiago Barce e ao Vitor Funk pela irmandade motociclista.

Ponto Com
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