Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
Carnaval… ir ou não ir?
Por Gelsiney Schell
“Entre Confetes e Consciência”
Entre máscaras e silêncios, a pergunta não é sobre a festa — é sobre nós.
O Carnaval, para muitos, é a chamada “festa da carne”, herança de excessos antigos, ecos de ritos que celebravam o corpo, o riso e a ruptura das regras. Para outros, é cultura, é arte, é desfile, é música, é catarse coletiva. Há os que correm atrás do trio, e há os que correm para longe do barulho. No fundo, todos correm — cada qual em direção àquilo que acredita ser mais verdadeiro.
Se evocarmos Platão, perceberemos que a questão talvez não esteja na festa, mas no governo da alma. Para ele, o ser humano é tensionado entre razão, emoção e desejo. Quando o desejo assume o comando, inclina-se ao excesso; quando a razão conduz, busca-se o equilíbrio. E é justamente nesse espaço — entre impulso e consciência — que começa o verdadeiro debate.
Há uma palavra antiga que raramente usamos em tempos de festa: afastamento. A apostasia não começa com discursos inflamados nem com gestos dramáticos. Começa sutil. Começa quando aquilo que antes nos inquietava já não incomoda. Quando a consciência silencia. Quando chamamos de liberdade aquilo que talvez seja apenas concessão.
Platão falava do mundo das aparências e do mundo das ideias. No primeiro, dançamos, rimos, exageramos, vestimos máscaras. No segundo, buscamos essência, verdade, sentido. O risco não está em dançar — está em esquecer quem somos enquanto dançamos.
Em que ponto da nossa caminhada nos encontramos quando a euforia nos cega? Não é a música que cega. É a anestesia interior. É quando já não distinguimos celebração de desordem, alegria de fuga, liberdade de escravidão. Talvez a maior cegueira seja aquela que não percebe o próprio afastamento.
Mas também é verdade que o Carnaval não é, por si, vilão nem santo. Ele é espelho. Revela o que cada alma carrega. Para alguns, é arte e cultura. Para outros, é tentação. Para muitos, é apenas tradição.
E se alguém decide não ir? Também é legítimo. O recolhimento pode ser um ato de consciência. Reconhecer limites é maturidade, não fraqueza.
No fim, a pergunta permanece: quem governa sua alma nesses dias — o impulso ou a consciência?
Ir ou não ir?
Talvez a resposta mais honesta seja esta: vá — ou não vá — mas não se perca de si. Porque a verdadeira festa — ou a verdadeira queda — acontece dentro.




