Entre Pontos e Vírgulas por Gelsiney Schell
O Senhor dos Segredos…
30 minutos de conversa com a história Viva… 1995
Há dias em que o tempo se curva diante de nós e sussurra baixinho: “Senta aqui… tenho algo pra te contar.”
Foi num sábado desses, quando o céu ostentava um azul maduro e o vento rodopiava folhas secas pela Avenida Rio Grande do Sul, que resolvi caminhar desde a Vila Gaúcha até o coração palpitante de Marechal Cândido Rondon.
A cidade dormia tranquila na brisa da tarde, e ainda sentíamos o cheiro do café torrado que vinha da Rua Santa Catarina, como se cada rua guardasse um segredo à espera de ser ouvido. Meus passos eram lentos, quase meditativos buscavam o silêncio, mas talvez buscassem também a mim mesmo.
Ao dobrar a esquina da Rua 7 de Setembro, vi-o. Sentado num banco de madeira envelhecida, sorria como quem acabara de decifrar um enigma antigo. Seus olhos duas janelas escancaradas para um tempo que já não era o nosso miravam além dos telhados e das horas.
Retribuí o sorriso, como quem aceita um convite sem palavras.
Sentei-me ao seu lado, cansado da caminhada, sedento de pausa. E ali, sem perceber, deixava de ser apenas um caminhante tornava-me confidente de uma alma que carregava o peso gentil de muitas vidas.
“Boa tarde”, disse ele, com voz de rio que corre sem pressa.
Caminhar faz bem à alma, principalmente quando não temos pressa de chegar.
Conversamos como se o tempo houvesse adormecido entre nós. Foi então que ele revelou sua identidade, com um brilho quase infantil nos olhos:
“Heribert Joachim-Hans Gasa. Mas por aqui, sou só o Sr. Gasa.”
Meu coração reconheceu o nome antes da mente entender. Era ele o homem da casa enigmática, o guardião do museu vivo, o arquiteto de memórias. Um estrangeiro que plantou raízes profundas na alma rondonense, como um pinheiro antigo que fala mais com o silêncio do que com palavras.
Com voz serena, contou-me sua travessia: a juventude arrancada pela guerra, os invernos russos que gelavam até a esperança, as noites de fome e fé, os livros que lia como quem busca salvação, as lentes que lapidava com a precisão de um orfebre da luz.
Falou da sua casa como se me mostrasse uma maquete invisível feita de lembranças: passagens secretas, jardins que dançavam com o vento, paredes que sabiam ouvir. Era mais que uma morada era uma extensão da sua alma inquieta.
E eu, diante daquela imensidão de simplicidade e sabedoria, só sabia escutar.
Porque às vezes, “ouvir é a maior forma de amar”.
O sol já se derramava pelas calçadas quando ele se levantou. Despediu-se com um aceno leve, como quem encerra um capítulo e devolve o livro ao tempo.
Toda cidade tem seus segredos, disse ele, com os olhos firmes no horizonte.
Basta saber onde sentar… e com quem calar o mundo.
Fiquei ali por mais alguns minutos, como quem acorda de um sonho bom. Ao longe, o Sr. Gasa desapareceu na esquina da 7 com a Santa Catarina talvez voltando ao seu próprio tempo, ou a algum lugar onde os segredos ainda são respeitados.
Anos depois, já com os cabelos mais próximos do branco e as palavras mais cheias de reverência, recebi um convite da professora Lia Dorothea Pfluck. Ela idealizava um projeto ousado e poético: transformar a casa de Hans Gasa em um museu um templo vivo de memória e legado.
Aceitei sem hesitar. E quando atravessei o portão de ferro imenso, mas que se abria com a leveza de um gesto percebi que adentrava não apenas uma casa, mas um universo.
Fui encarregado de traduzir os títulos de mais de 1.800 livros em alemão. Cursava Letras com habilitação em alemão e, entre páginas amareladas e poeiras antigas, descobri verdadeiros tesouros: um exemplar do “Negrinho do Pastoreio” datado de 1906, escrito em alemão uma ponte literária entre culturas irmãs. Havia também uma vasta coleção de livros sobre “arquitetura árabe”.
Foi ali que compreendi: aquela casa era o abraço silencioso entre o Oriente e o Ocidente. Suas curvas, arabescos, mecanismos ocultos e detalhes minuciosos revelavam um homem que pensava com os olhos e sentia com as mãos.
Cada livro, cada objeto, cada fotografia emoldurada pelas paredes guardava mais que memória guardava visão, guardava sonho. A casa não era abrigo: era pensamento construído. Era cidade em forma de lar.
Desde então, compreendi que alguns homens não passam pela vida eles a escrevem.
Hans Gasa foi um desses. Deixou mais que tijolos empilhados: deixou poesia entranhada em pedra e vento.
E sempre que passo pela esquina da Rua 7 com a Rio Grande do Sul, olho com respeito. Ali, um dia, sentei diante de um mundo inteiro e o mundo me sorriu de volta.
Fico pensando que um dia talvez seja eu quem ocupará aquele banco, de cabelos brancos e olhar demorado, esperando o próximo caminhante. Talvez ele também esteja buscando silêncio, ou um pouco de si. E talvez, se o tempo permitir, eu seja para ele o que o Sr. Gasa foi para mim:
Um segredo bem guardado na alma de Marechal Cândido Rondon.
Por Gelsiney Schell.




