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‘Eu ia morrer’, diz mulher vítima de tortura e cárcere privado, no Paraná
Vítima disse que tinha que costurar o olho, colocar agulha na língua, passar faca quente e jogar água fervendo no rosto como punição do marido. Mulher fugiu de casa, em Toledo, e marido foi preso
Após viver um ano em cárcere privado e ser torturada, em Toledo, no oeste do Paraná, uma mulher conseguiu fugir de casa e pedir ajuda. Em entrevista à RPC, ela relatou a violência que viveu nesse período.
De acordo com a vítima, que preferiu não se identificar, ela se acostumou a conviver com a violência, mas não imaginava que a situação poderia se tornar tão grave.
Com a pandemia do novo coronavírus, ela disse que o marido passou a ficar mais tempo em casa e controlar cada passo, atitude e palavra dela.
Até que começaram as agressões e a tortura, inclusive, na frente do filho do casal, de 12 anos, segundo a vítima.
“Ele criou um caderno, tinha aproximadamente umas 300 palavras que eu tinha que memorizar para evitar aquelas palavras. Se acontecesse de eu falar alguma palavra por descuido, eu era penalizada. Eu tinha uma punição, uma punição bem grave, como passar a faca quente no rosto, queimar o meu rosto com… jogar água quente, fervendo no rosto, óleo quente, costurar o olho, colocar agulha na língua.”
Segundo a Polícia Civil, em julho de 2021, o marido da vítima foi preso como suspeito e deve responder por tortura, cárcere privado e corrupção de menor. O casal estava junto há 13 anos.
De acordo com a vítima, ela não tinha contato com a família e nem amigos. Vivia em uma cidade que conhecia há pouco tempo e se sentiu sozinha diante da situação.
“Eu jamais ia abandonar o meu filho. Eu não tinha para onde ir, eu não conversava com ninguém, ninguém sabia da minha existência. Eu poderia ir em uma delegacia, mas e depois? Para onde que eu iria? Para onde que eu iria levar o meu filho? Se eu continuasse naquela situação, naquele ambiente lá, eu ia morrer.”
A mulher contou ainda que a violência começou aos poucos e ela sempre perdoava o marido. Quando conseguiu sair de casa, ela estava com a cabeça raspada e o corpo cheio de hematomas e feridas.
“Começou a impor regras, nunca era bom o suficiente tudo o que eu fazia pra ele. Começou a me proibir de assistir televisão.”
Desde que conseguiu fugir do cárcere privado, a vítima ganhou apoio de outras mulheres. Ela foi acolhida por uma família de Toledo e é mantida em sigilo.
“Eu só tenho vida hoje, como você me vê sorrindo, você me vê mais tranquila hoje do que eu relatei antes, com todo o apoio que eu tive, porque sozinha eu jamais teria conseguido.”
Atendimento às vítimas
De acordo com dados do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), a violência doméstica aumentou durante a pandemia, com as famílias fechadas em casa.
Nesse cenário, muitos casos deixaram de ser denunciados por conta do isolamento e distanciamento social.
Em 2021, com as flexibilizações e retorno dos serviços, os números de denúncias têm crescido.
No Paraná, até agosto de 2021, foram registradas 104.441 ações de violência doméstica em andamento. De novos casos deste ano, foram mais de 25 mil.
De acordo com a desembargadora Ana Lúcia Lorenço, as varas criminais do estado estão com poucos servidores nas unidades para atender casos de violência doméstica e existe restrição orçamentária para poder ampliar o quadro de profissionais nos tribunais.
“Nós temos mais de 300 varas criminais no estado, mas juizados especializados de violência doméstica nós temos só 10, as demais ações tramitam em varas criminais. Nessas varas criminais, o juízes não atendem só os crimes de violência doméstica, atendem todo tipo de ação penal, crime de tráfico, roubo, latrocínio, estupro.”
Uma das metas lançadas este ano pelo Conselho Nacional de Justiça aos tribunais é julgar, até o final de 2021, 50% dos casos autuados de violência doméstica.
No Paraná, um levantamento está sendo feito para avaliar a necessidade de mutirões para julgamentos.
“Quando ocorre um acúmulo de processos, em relação a alguma comarca ou alguma vara, em que há a necessidade da intervenção dessa força-tarefa, é feita uma avaliação técnica do volume de processos que precisam ser julgados, quantos realmente estão em atraso.”
A Lei Maria da Penha completou 15 anos em setembro deste ano. Ela poderia ser mais eficiente, mas apenas dez cidades do Paraná tem casas abrigo para receber a mulher em situação de violência após uma denúncia.
“Esse atendimento da casa abrigo é de alta complexidade, porque ele tem que ser sigiloso, tem que ser em um lugar onde exista recursos para que tenha segurança, não é uma casa comum”, explicou a coordenadora do departamento de Garantia dos Direitos da Mulher, Silvane Farah.




