Geral
Quando o Céu Se Aproxima…
Mistérios da Partida e a Esperança que Fica
Há momentos na vida em que o silêncio fala mais alto do que qualquer palavra, e a presença de Deus parece tocar o chão da nossa casa, o corredor de um hospital ou o quarto simples de alguém que já viveu o bastante para entender que há algo maior além desta vida. São instantes em que o céu deixa de ser distante e passa a ser uma luz suave que escorre pelas frestas da existência.
Em Marechal Cândido Rondon, nas conversas de varanda, nas histórias contadas no interior, no café com pão caseiro e nas lembranças de famílias que viram a vida se despedir devagar, existe sempre alguém que repete:
“No fim, cada um sabe quando chegou a hora.”
Algumas dessas histórias caminham comigo. Outras me foram contadas com aquele olhar que tenta entender o incompreensível.

O tio de um amigo, muito doente, estava rodeado pela família quando fixou os olhos na porta do quarto. Arregalou o olhar, como quem enxerga algo que nós não vemos, e murmurou:
— Agora ele vem… e o bicho é feio.
O corpo se contorceu, e ele faleceu logo em seguida.
Ninguém ali esqueceu aquela cena, porque a morte, às vezes, chega anunciada — e nem sempre com rosto amável.

Mas há despedidas que parecem poesia.
Dona Íris, amiga querida, se deitou para descansar e nunca mais acordou. Partiu sorrindo, como quem avista uma paisagem bonita do outro lado da vida.

Meu pai também se foi assim: com um sorriso calmo, quase infantil, como se tivesse visto uma mão estendida na escuridão e decidido segui-la sem medo.
Nem todos, porém, encontram essa paz.
Minha mãe conta que, nos anos 60, um senhor muito conhecido da comunidade faleceu escondido debaixo da cama. Ele gritava sem parar, o corpo rígido, a alma em pânico. O que ele viu — ou a quem temeu — ninguém sabe. O certo é que a morte, para alguns, chega como sombra.

No dia em que meu pai partiu, o paciente do leito ao lado arranhava as paredes, chamando pela mãe como uma criança perdida. Era como se cada grito fosse um pedido de proteção, uma tentativa desesperada de segurar-se à vida antes que o inevitável acontecesse.
Por outro lado, certas pessoas parecem ouvir o chamado com antecedência, quase com naturalidade.
Um amigo meu foi assim. Reuniu a família numa segunda-feira e anunciou, com uma tranquilidade que surpreendeu todos:
— Se preparem. No sábado eu vou embora.
E foi. Exatamente como disse.
Sem dor, sem agonia, sem luta.
Apenas atravessou a porta que todos nós um dia atravessaremos.

Essas histórias ficam voando na memória da gente como andorinhas que passam e voltam. Não são contos de assombração; são retratos da alma humana diante do maior de todos os mistérios: o que existe depois desta vida.
A fé cristã nos ensina que a morte não é o fim, mas uma travessia. Um portal entre o que conhecemos e o que apenas imaginamos. E talvez seja por isso que alguns partem sorrindo — porque enxergam a luz do outro lado.
Outros partem lutando — porque enfrentam seus medos, cargas e conflitos que carregaram por anos.
A cortina que separa a vida da eternidade é fina.
Tão fina que, às vezes, os sentidos percebem antes da razão.
Para uns, ela se abre revelando paz.
Para outros, ela se abre revelando aquilo que evitamos enfrentar durante toda a vida.
Mas, seja como for, ninguém cruza essa cortina sozinho.
O cristianismo fala de anjos que acompanham quem parte com fé. Fala de descanso para os cansados, de acolhimento para os aflitos e de justiça para os que sofreram em silêncio.
E, acima de tudo, fala de um Deus que não abandona Seus filhos no último suspiro.
A morte é assustadora?
Sim, muitas vezes é.
Mas o amor de Deus é maior que o medo.
A eternidade é maior que o sofrimento.
E a vida — mesmo quando termina — não perde o sentido.
Aqui, nas nossas casas, nas ruas de Marechal, nos bairros silenciosos, nos sítios onde o galo canta cedo, sempre haverá alguém que vai contar uma história parecida com essas. Sempre haverá uma memória de alguém que partiu sorrindo ou gritando, preparado ou surpreendido.
E, no fundo, todas essas histórias nos lembram que a vida é breve, mas preciosa.
E que a alma continua — leve como o vento que atravessa a plantação de trigo no fim da tarde.
Talvez o segredo seja viver de tal forma que, quando chegar a nossa vez de atravessar essa porta misteriosa, possamos ir como foram aqueles que sorriram:
em paz consigo mesmos,
em paz com Deus,
em paz com o mundo.
Porque, apesar de todos os mistérios da partida, uma certeza permanece:
para quem tem fé, a morte não é um ponto final — é apenas o começo de uma eternidade que Deus preparou com amor.
Por Gelsiney Schell




