Esporte
A história dos três irmãos rondonenses apaixonados por cavalos
Paola e Pyetra estão entre as 24 rondonenses inscritas para a prova de 3 Tambores da Expo Rondon
Segundos de fama, adrenalina, emoção e alegria… É isso que competidores de vários cantos do Brasil buscam nas provas Três Tambores em competições espalhadas por diversas regiões.
Provas emocionantes, que já propiciaram muitos troféus e medalhas para os três irmãos rondonenses apaixonados por cavalos: Pablo, Paola e Pyetra. A história deles com esse esporte desafiador, que é a prova de 3 Tambores, começou há pelo menos 22 anos.
Celso, o pai deles, é um apaixonado pela vida no campo, e especialmente por cavalos. Ele começou a participar de grupos de cavalgada de várias cidades próximas a Marechal Cândido Rondon com o amigo Lirio Vorpagel, também rondonense, que já é falecido… Quando tinha oportunidade, Celso levava junto o filho, que na época só tinha quatro anos.
“A cavalgada de carnaval era tradição, e durava quatro dias. Saía no sábado e voltava na terça-feira. No último dia, o grupo fazia um churrasco e provas para as crianças e adultos brincarem”, conta Celso.
As cavalgadas englobavam gente de Marechal, Pato Bragado, Entre Rios do Oeste, Santa Helena, São José das Palmeiras, Céu Azul, Vera Cruz do Oeste. “Praticamente ninguém de Marechal participava… E era cada cavalo, que só por Deus. Íamos como podíamos”, ele relembra.
A esposa de Celso, Glecy, também recorda que era tudo improvisado.
Pablo lembra que era divertido. Ele amava participar. O pai comenta que se deixassem, o filho passava o dia no cavalo. E ele tem várias lembranças de quando ia para os eventos com o pai. “A gente dormia em redes ou só num colchãozinho”. Por sorte, em alguns lugares pelos quais o grupo passava havia um barracão onde se refugiavam a noite.


E o que parecia só um passatempo foi ficando sério…
“Fomos indo e o grupo foi crescendo… com o passar do tempo conhecemos mais pessoas de Marechal Cândido Rondon que tinham interesse em participar das cavalgadas, fomos fazendo amizades com quem tinha mais experiência, e de repente, o Pablo estava competindo pra valer.


Sua primeira competição oficial foi aos dez anos, em Pato Bragado, e só fez com que ele gostasse ainda mais do esporte, tanto que as irmãs logo se sentiram motivadas a participar também.
Participando das cavalgadas, logo, outras oportunidades começaram a ser vislumbradas por Celso e pelo grupo. As ideias eram muitas. E assim, a família ficou conhecida como os propulsores das cavalgadas no município rondonense.
O pessoal que organizava o rodeio era de fora da cidade e, um dia, surgiu a oportunidade do grupo do Celso organizar as provas cronometradas da Expo Rondon. Ele, a família e alguns amigos fizeram a frente e começaram a organizar a competição em todos os quesitos, inclusive, de cuidar do reparo da pista, que naquela época, há sete anos, era feito na enxada mesmo. Tudo pelo amor ao esporte!
COMO É A PROVA
A prova de 3 Tambores combina várias habilidades de cavalos, cavaleiros e amazonas e é sucesso nas festas de peão. É preciso além de velocidade, uma boa coordenação motora para alcançar o grande objetivo da competição, que é contornar três tambores em um percurso triangular no menor tempo possível. Derrubar um tambor, acrescenta 5 segundos ao tempo final, tornando difícil a vitória diante do tempo dos outros competidores. A distância dos tambores varia de acordo com o tamanho da pista. A prova não tem uma idade mínima, e as categorias variam por idades, sexo, amador, profissional, entre outras.
DISPUTAS
Pablo disputou mais de 50 competições e tem pelo menos 30 troféus e medalhas. Nunca disputou a Expo Rondon porque em Marechal Cândido Rondon não há categoria masculina nas provas de 3 Tambores.
Depois de aproximadamente dois anos que Pablo estava participando das cavalgadas, a Paola que já amava os cavalos, também começou a participar e passou a acompanhar o pai e o irmão. E a vontade dela já era competir. As cavalgadas eram os treinos para um dia disputar os 3 Tambores. E deram muito certo!
Na primeira competição que ela participou, em Palotina, já ficou vice-campeã do rodeio. “Foi emocionante!”, Paola conta. Em alguns momentos ela nem acreditava que estava participando. Hoje ela já soma mais de 100 competições. Em Marechal Cândido Rondon, ela já competiu pelo menos quatro vezes e é uma das 24 rondonenses inscritas para a competição de 2022.


“Participar na cidade é mais emocionante e é bem mais difícil, pois, a responsabilidade aumenta”, afirma Paola.
Ao menos 30 dos troféus e medalhas no acervo da família já são dela. Seu propósito nos 3 Tambores é participar do maior número de provas que puder em muitas cidades diferentes e conhecer ainda mais pessoas.


Alguns anos depois, a Pyetra, que é a caçula dos três, e que já nasceu com a paixão na veia, afinal, chegou na fase em que os irmãos já tinham ganhado muitas medalhas, também começou a competir. Aos sete meses, o pai já carregou ela junto no cavalo e Pyetra estava participando da sua primeira cavalgada.
Com quatro anos, ela começou a participar das aberturas dos rodeios e quando a família foi ver, o tempo tinha passado e ela estava competindo, ganhando medalhas em provas pela região. Aos seis anos, Pyetra ganhava a sua primeira medalha, na cidade de Iporã. E no primeiro rodeio que ela participou na categoria kids, em junho de 2017, ainda com 6 anos, já ganhou seu primeiro troféu.


Pyetra já participou de aproximadamente 30 competições. Este ano, assim como a irmã, ela competirá na Expo Rondon pela primeira vez na categoria feminina.
Pyetra já soma aproximadamente 15 troféus e medalhas. E tem se destacado nas competições, indo para a final na maioria delas.



Os pais sonham em ver as filhas participando em Barretos algum dia.
MELHORES LEMBRANÇAS
Medo, adrenalina, pressão… são alguns dos sentimentos ao entrar na pista.
“Tem que entrar com vontade de ganhar. E a gente sai de casa com vontade de acertar, mas sabe que se não for, é preciso colocar a cabeça no lugar e ver o que errou, encontrar um jeito de não errar da mesma forma novamente… e ir de novo”, Paola destaca.
Pablo enfatiza que o negócio é esquecer a pressão, “entrar e mandar ver!”. Mas lembra que muitas vezes “quando chegava perto do tambor dava um friozinho na barriga”.
O pai sempre fica apreensivo, e só tem uma coisa para dizer aos filhos “o que fazem na pista é reflexo dos treinamentos”.
A mãe, Glecy, tem orgulho do que os filhos já conquistaram e dos resultados que as meninas vêm obtendo, afinal, nunca foram para uma escolinha.

“Eles começaram nas cavalgadas e foram treinando por conta própria e para mim, como mãe, esse é o fato que faz deles merecedores dos bons resultados, dos troféus e das medalhas que conquistam. Estão sempre se esforçando, batalhando para continuar participando”, ela diz.
Os irmãos têm incontáveis lembranças e fica bem difícil definir a melhor ou a pior. Mas, sem dúvidas, alguns acontecimentos marcam um pouquinho mais do que os outros…
Ao falar de boas lembranças, os três ficam pensativos, os olhos brilham, um sorriso aparece e muitas coisas vêm à mente. Até fica difícil escolher um melhor momento.
Mas, Pablo tem certeza de que sua melhor recordação é da competição que participou em Santa Helena, em agosto de 2018, quando tinha 22 anos. Ele fez o melhor tempo da prova com 16’425.
“Tinha chovido, era inverno, estava frio, eu tava participando na categoria masculino livre. E eu era o último a competir. O penúltimo competidor, era um treinador de 3 Tambores e ele fez o melhor tempo… era como se ele tivesse sido consagrado campeão da prova. Aí eu fui… Na primeira passada eu derrubei um tambor, na segunda chance eu fiz o melhor tempo da prova. O melhor tempo de todas as categorias”. E essa foi a despedida do Pablo das provas…
A melhor lembrança da Paola é de uma competição em São Jorge do Patrocínio. No início, parecia que ia dar tudo errado… No primeiro dia da competição, a sua égua comeu cal e ficou com a boca machucada, foi medicada e depois ainda conseguiu treinar… Na hora da competição, já na primeira passada, Paola se classificou entre as cinco melhores competidoras. À noite, a égua estava dormindo devido ao efeito do antialérgico e Paola ficou apreensiva… Mas, no outro dia, ela também passou bem e foi campeã do rodeio fazendo o melhor tempo da prova.
Pyetra tem sua melhor lembrança de uma competição em Santa Terezinha do Itaipu, quando ficou bicampeã, em setembro de 2021. O pai não esquece da alegria do comentarista Fabão Potência na vitória dela.
Segundo os irmãos, com as competições, a maior lição é nunca deixar de acreditar. Afinal, “se você não acreditar em você, não vai chegar a lugar nenhum. Se não der num dia, não era para ser. No outro dia você tenta de novo”, Paola afirma.
A palavra que não pode entrar no dicionário deles é desmotivação.
PIORES LEMBRANÇAS
Vencer uma competição traz felicidade para a alma, emociona. Dá a “sensação de missão cumprida”, segundo a Paola e aquele ar de “mais um troféu para o currículo”, como diz o Pablo. Entretanto, nem tudo são flores nessa vida, nem quando você ama muito o que faz. E nas competições de 3 tambores, sem dúvidas, os cavaleiros e amazonas têm lembranças tristes também…
“O que pode ter de pior é derrubar os tambores na final de uma competição”, comentam os irmãos.
Quando Pablo recorda um dos seus piores momentos como competidor de três tambores, ainda fica chateado. Era abril de 2019, festa de aniversário de Entre Rios do Oeste e ele liderava a prova na categoria masculina com a égua Barbarela. Na mesma competição, ele participava com outro cavalo e estava em segundo lugar. Mas, por algum motivo, ele derrubou os tambores com os dois cavalos e de acordo com as regras, segundos foram acrescidos ao tempo final… Pablo não conseguiu uma boa colocação.
Para Paola, não tem lembrança mais triste do que quando a sua égua se machucou numa briga com outro cavalo dentro da baia esperando pela competição, em Loanda no mês de novembro de 2019. Ela perdeu o rodeio e ficou cinco meses sem poder competir.
Já a Pyetra, nunca mais vai esquecer de uma de suas competições em Goioerê. Além do temporal que atingiu a cidade naquele dia, ela perdeu a competição na final.
“Eu estava liderando, na semifinal fiz o tempo recorde do mirim e derrubei os tambores”, relembra. “É triste não conseguir o resultado que a gente quer”, diz Pyetra.
Mas, como afirma Pablo, o importante é depois da prova se perguntar “Onde errei? Onde preciso melhorar? ”, e “treinar, treinar e treinar”, completa o pai.
“Tem que ter cabeça e buscar conhecimento. ” Paola conclui.

DIFICULDADES E INVESTIMENTOS
Assim como em qualquer esporte, “tudo é aprendizado”, como relata, Paola. Nas competições de três tambores, vários fatores são responsáveis pelos resultados bons e ruins e para Pablo, Paola e Pyetra cada competição tem uma dificuldade diferente.
Nem todas as pistas são iguais: algumas têm muita areia, outras têm pouca… e isso dificulta a prova. O emocional dos competidores é outro fator preponderante. Precisa estar bem para competir, pois, são muitas as estratégias necessárias.
E assim como as competições foram evoluindo. “O nível de competidores foi crescendo”, Celso comenta, e “o ‘mundo do cavalo’ evoluiu”, diz Glecy.
“Com a ascensão do esporte, ele se tornou um pouco caro… é preciso dispender de um bom dinheiro para manter os cavalos com boa condição física e de saúde. Eles precisam de um bom alimento, suplementos, medicação. Os gastos são grandes”, comenta a mãe.
A família teve que acompanhar esse crescimento para que os filhos continuassem nas pistas.
“Cada égua tem um tipo de treinamento, um tipo de descanso. Os animais são muito diferentes, assim como as pessoas. Tem dias que eles também não estão de bom humor… realmente são como um ser humano”, diz Paola.
Mas tudo vale a pena… afinal, eles reconhecem que os cavalos mantêm a família e amigos unidos. “Nas competições você pode ver pais, avós, primos… todos juntos, felizes, torcendo”.
Os investimentos para competir não são apenas com o animal, os competidores precisam de roupas e calçados adequados, e o chapéu, que não pode faltar, é claro! Eles também precisam pagar por suas inscrições. “E é muito difícil conseguir patrocínio para as competições. Quando conseguimos, geralmente o patrocínio não cobre os gastos que temos”, relata Paola.
O retorno que eles têm é de fazer o que gostam. Afinal, como diz a Paola, “retorno não é só dinheiro. Cavalo é uma terapia e o que realmente conta é a história que fica”.
E A HISTÓRIA QUE FICA…
Eles acordam cedo, trabalham o dia inteiro, e quando chegam em casa, a primeira coisa que fazem é cuidar dos cavalos… A Paola e a Pyetra treinam todos os finais de tarde… e os irmãos e o pai não descansam enquanto os animais não estão bem cuidados, alimentados e medicados, caso necessário.
O melhor de todo o trabalho e desafios são as amizades, a adrenalina e o próprio fato de estar com os animais.


“Fora da pista todos os competidores viram uma família”, Celso, a esposa e os filhos contam.
Todos competem entre si com a intenção de levarem a melhor, mas depois estão juntos, conversando e brincando.
“Todos querem ganhar, mas a gente sente orgulho de ver o destaque de cada um”, fala o pai.
“E é bom ganhar, mas tem que saber perder e ter humildade de parabenizar quem venceu”, comenta Paola.
“Antes, víamos as competições na televisão, hoje vemos as nossas filhas competindo”, Celso comenta orgulhoso.
Há alguns anos, o namorado da Paola, que trabalha em um Haras apoia as meninas no treinamento.
Durante a conversa com a família, dá para notar que nutrem um amor imensurável pelo esporte.
Hoje, eles têm a própria pista em casa, no sítio onde vivem, e lá as meninas realizam os treinamentos.
Pablo não compete mais, por vários motivos… um deles é a ausência da prova de 3 Tambores na categoria masculina em Marechal Cândido Rondon. Mas, dá para notar que ainda tem no coração a vontade de entrar na pista novamente.
Atualmente, nos rodeios e competições paranaenses, Marechal tem um dos maiores públicos. São milhares de pessoas que acompanham as provas na arena de rodeio.
Para a família, esse é um esporte que deveria ser mais valorizado. Eles também acreditam que seria importante criar uma associação em Marechal Cândido Rondon para amantes de cavalos, cavalgadas e afins. Isso ajudaria muito a todos os competidores, inclusive todos que estão começando.




