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Opinião

Eleições presidenciais: riscos para o agronegócio?

Como se comportou o faturamento das seis maiores cooperativas da região ao longo dos últimos 20 anos, sob diferentes composições e projetos governamentais

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|Foto: Arquivo/Portal Rondon|
Martin Luther – Enem

Quando se trata de identificar os principais sujeitos responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social da região Oeste do Paraná parece ser consenso que as cooperativas agroindustriais estejam entre as principais referências, senão a principal.

Esta referência não é aleatória ou, não nos parece, apenas fruto de um imaginário destituído de experiência vívida e vivida: um visitante que estivesse pela primeira vez passeando pela região, facilmente captaria a presença massiva daquelas empresas, seja na observação das inúmeras unidades dispersas pela paisagem, seja na circulação dos múltiplos veículos e dos milhares de trabalhadores vestidos com os uniformes e portando os logos dos empreendimentos que os emprega.

Funerária Alemão

Tendo em conta esta importância e presença das cooperativas na região, não nos parece estranho que, em períodos eleitorais, um clima de receio e desconfiança se instale sobre as consequências que eventuais mudanças de governo poderiam acarretar àqueles empreendimentos de vital importância para a região. E aqui, novamente, o recurso à experiência pode nos auxiliar a, pelo menos, relativizar aquelas previsões que apontam para um horizonte, no mínimo, nebuloso.

Evidentemente, para essa situação de dúvidas quanto ao futuro, um mero olhar pela paisagem não seria muito útil, dado que captaríamos de imediato apenas um dado presente. Assim, uma outra possibilidade seria verificar o processo de constituição das cooperativas e, neste aspecto, considerando também o espaço de que dispomos, poderíamos percorrer os faturamentos obtidos pelas cooperativas da região durante dois momentos distintos vividos recentemente: um primeiro que vai de 2003 ao final de 2016, com o governo federal sendo encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores; e, um segundo momento, que iria do final de 2016 ao corrente ano, ocupado por duas outras organizações políticas, quais sejam o MDB, com Michel Temer (do início deste segundo período até 2018) e os partidos PSL e PL, considerando as filiações partidárias do atual presidente Jair Bolsonaro (ocupante do cargo de 2019 até a presente data).

A verificação destes faturamentos, diga-se de passagem, se apresenta como algo bastante simples, dado que as cooperativas em questão trazem aqueles dados em seus sites, de forma bastante bem organizados e de livre acesso a qualquer pessoa interessada.

Assim, pegando apenas seis cooperativas da região – as que consideramos as maiores em termos de faturamento –, acrescido dos dados da OCEPAR (Organização das Cooperativas do Paraná), compomos os seguintes quadros para aqueles dois períodos apontados antes:

Faturamento das Coop. Agroindustriais do Oeste do Paraná de janeiro de 2003 a dezembro de 2016

CooperativaFaturamento 2002 (R$)Faturamento 2016 (R$)Crescimento 2002-2016 (R$)Percentual de crescimento 2002-2016Percentual de crescimento médio anual
Coopagril143,3 milhões1,47 bilhões1,32 bilhões972%69,4%
Frimesa408,4 milhões2,56 bilhões2,15 bilhões628%44,85%
C.Vale800 milhões6,83 bilhões6,03 bilhões601%42,92%
Lar690 milhões4,81 bilhões4,12 bilhões697%49,78%
Copacol408 milhões3,25 bilhões2,84 bilhões797%56,92%
Copavel550 milhões2,12 bilhões1,57 bilhões385%27,5%
Ocepar10 bilhões70 bilhões60 bilhões700%50%

Faturamento das Coop. Agroindustriais do Oeste de janeiro de 2017 a dezembro de 2021

CooperativaFaturamento 2021 (R$)Crescimento do faturamento 2017 – 2021 (R$)Percentual de crescimento 2017-2021Percentual de crescimento médio anual
Coopagril2,42 bilhões952,78 milhões64%12,8%
Frimesa5,03 bilhões2,47 bilhões99%19,8%
C.Vale17,44 bilhões10,61 bilhões155%31%
Lar17,04 bilhões12,19 bilhões253%50,3%
Copacol7,9 bilhões4,37 bilhões136%27,2%
Copavel4,94 bilhões2,82 bilhões133%26,6%
Ocepar153,7 bilhões83,7 bilhões119%23,8%

De maneira geral e para não cansar o leitor, os dois quadros evidenciam, mais uma vez, a pujança das cooperativas agroindustriais elencadas, demonstrando não só a resiliência (nível de adequação), mas, para além disso, uma impressionante capacidade de manter um vigoroso crescimento, independente das conjunturas.

Novamente cortando caminho – o que não impede ao leitor acompanhar a fundamentação das afirmações feitas aqui -, observemos de forma mais detida apenas as últimas colunas das duas tabelas (“Percentual de crescimento médio anual”).

Ainda que os faturamentos expostos não estejam corrigidos e/ou atualizados por algum índice – como, por exemplo, o da inflação (com dois picos expressivos, um em 2015 de 10,7%, e outro em 2021 – o maior dos últimos 20 anos – 11,03%) ou pela variação cambial (praticamente estável no primeiro período – em torno R$ 3,29 por dólar – e com uma alta mais considerável no segundo período – próxima a 60%), o que acarretaria uma redução – notadamente, no segundo período – nos índices de crescimento das cooperativas, mesmo assim os números obtidos permanecem vigorosos, bem acima do crescimento do PIB nacional.

A vista destes elementos, nos parece sem fundamento empírico e histórico qualquer temor dos setores agropecuários na região Oeste do Paraná com uma possível alteração no quadro governamental federal, dada a capacidade demonstrada pelo setor em se desenvolver e implementar crescimento econômico e social, em diferentes e, por vezes, adversas conjunturas.

Por Rinaldo José Varussa – Professor associado da Unioeste, atuando no Campus de Mal.
Candido Rondon desde 2000

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