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Cidade invisível é uma ótima ideia, mas será que é boa de assistir?

A série é um suspense policial que envolve as entidades místicas do folclore brasileiro

Publicado

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Gramado Presentes

Estamos tão acostumados com mitologias de culturas estrangeiras que esquecemos o quão rica é a nossa. Acabamos pensando sempre igual ao estrangeiro quando pensa em folclore ou em entidades mitológicas, ou seja, associando com dragões, fadas, flautistas mágicos e gigantes. De repente, uma série promove ao mundo uma corrida ao Google para saber mais de nosso Curupira, Boto, Cuca, Saci e Iara. E acaba promovendo o reencontro do brasileiro com sua própria identidade folclórica. Só por esta proposta, devemos aplaudir a série. Mas cabe a pergunta: a série Cidade Invisível (Netflix, 2021) é boa?

A série é, na verdade, um suspense policial. Eric (Marco Pigossi) é um policial ambiental que  tem sua esposa, Gabriela (Julia Konrad), morta durante um incêndio florestal. Inconformado com o relatório inconclusivo, parte em busca de respostas. Porém, à medida que a investigação avança, vai se deparar com uma trama que envolve as entidades místicas de nosso folclore, descobrindo que eles são todos reais e que haviam se adaptado ao meio urbano.

Cercar 27 e 28 05 2022

É importante abrirmos mão de nossa principal referência sobre as entidades de nosso folclore que é Monteiro Lobato para apreciarmos Cidade Invisível. Também precisamos nos despir de algumas abordagens mais acadêmicas e tratar a série como uma grande produção internacional com fins de entretenimento. Ou seja, não podemos ter um olhar infantil do Sítio do Pica-Pau Amarelo e tampouco o olhar carrancudo das pesquisas antropológicas. Aliás, é admirável apresentar para o mundo esse pequeno pedaço de nossa cultura e oferecer um entretenimento de qualidade abrindo portas para outras produções de qualidade de autores e artistas brasileiros. Ter uma produção como Cidade Invisível entre as séries mais assistidas do mundo, por si só, já é motivo de admiração.

O que a série tem de bonita em matéria de enredo e de qualidade de produção, infelizmente falha em matéria de interpretação e narrativa. Sobre a interpretação, a obra possui três núcleos bastante definidos e elencos em níveis bem diferentes de preparação: um núcleo policial, o núcleo dos pescadores da Vila Toré e o núcleo das entidades mitológicas. O núcleo das entidades é o coração da série, que carrega nas costas cada episódio. O núcleo dos pescadores é bem aquém em matéria de interpretação se comparado ao das entidades. Mas não estão ruins, os diálogos e as reações é que são quase sempre forçadas. Em compensação, quase nada se salva do núcleo policial – de uma canastrice que chega a incomodar.

A narrativa também não é das melhores. Episódios arrastados e quase sempre recheados de diálogos e situações que não levam a lugar nenhum são bastante irritantes e quase estragam a série. Situações como a de uma repartição pública que fecha mais cedo por causa de um jogo do Flamengo é piada por demais tola e que não contribuiu em nada para o enredo. Sem falar de um corpo que desaparece de um IML e que não há nenhuma consequência porque “tem trabalho demais para ficar se preocupando com um corpo só” chega a ser mais difícil de acreditar do que crermos que Saci existe. A primeira cena tem uma atuação pífia. O policial ao ver sua esposa morta tem uma reação, vamos dizer assim, plástica. Rápido demais para que entendessemos a importância daquele vínculo para o personagem. Ao abraçar a filha, nova insuficiência de interpretação. Mas, tudo bem, é só a primeira cena. Vamos dar uma chance para a série. Mas a coisa piora com interpretações sempre muito fracas do grupo familiar de Eric para a importância que eles deveriam ter para a trama.

Algumas escolhas técnicas são também problemáticas. Coisa estranha para o produtor da série, Carlos Saldanha, que já mostrou que sabe lidar com elas em produções como Rio, Era do Gelo e Touro Ferdinando. Há cortes grosseiros entre um plano e outro de uma mesma cena que podem nos causar labirintite se formos querer entender o que aconteceu. Pior é que em diversos momentos a câmera não mostra o que era importante de se ver. A abertura é bastante genérica. Bons efeitos visuais quando se tratam das entidades, ainda que de vez em quando nos causem desconforto como no caso do Curupira. 

A série é de difícil definição quanto ao seu foco principal. Até o último capítulo, há um suspense para saber quem é, afinal, o vilão. Se são as entidades ou se são os representantes da especulação imobiliária. Com um desfecho decepcionante, mas que abre margem para uma continuidade ou segunda temporada. De qualquer maneira, trata-se de forças da natureza em conflito com sua devastação. É claro que tudo aquilo que envolve o meio ambiente é fundamental e preocupante, afinal nossa existência no planeta depende disso. Mas o tema já foi tão maltratado e de forma tão apelativa pelo cinema e televisão (quem não se lembra do horroroso Capitão Planeta?), que sempre é um risco abordar questões ambientais sem se tornar panfletário do santuarismo. E há momentos em que a série peca justamente ao forçar esses argumentos.

VEREDITO: a série é boa, mas com problemas bastante irritantes. Exceto pelo núcleo das entidades místicas, a trama se arrasta em diálogos desnecessários e interpretações bastante rasas. Há uma reviravolta nos dois últimos episódios que faz com que a série tenha fôlego para uma segunda temporada que pode ser consideravelmente melhor. Merece aplauso pela ideia de mostrar ao mundo nosso folclore, mas merece uma pequena vaia devido a esses problemas. NOTA 7,0.

Torres Di Maranello
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